Preso entre o lobby do agronegócio e as promessas sociais do Palácio do Planalto, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está dividido sobre as prioridades na liberalização de produtos agrícolas no mundo. Ontem, o Ministério da Agricultura pediu ao chanceler Celso Amorim que o Brasil não abra mão dos mercados da China e da Índia nas negociações, algo que começa a se desenhar.

De outro lado, os representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário querem que o governo apoie a criação de mecanismos que estabeleceriam novas barreiras ao comércio, protegendo pequenos agricultores. Essa proposta é contestada pela pasta da Agricultura.

Nas negociações em Genebra, um dos pontos de discórdia entre os países emergentes é o acesso aos mercados de Índia e China. Pequim e Nova Déli querem a criação de um mecanismo que estabeleceria novas barreiras agrícolas caso haja uma invasão de produtos agrícolas. A salvaguarda, segundo esses países, garantia a proteção dos pequenos agricultores.

"Não estou negociando a vida das pessoas. Apenas comércio. Não vou ceder em questões que agravam a pobreza nem a segurança alimentar", disse o ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, que lembra que tem em seu país 650 milhões de pequenos fazendeiros pobres. "Precisamos de proteções."

Ele confirmou que a Índia e o Brasil não têm posição conjunta sobre o assunto, mesmo que os dois façam parte do G-20 (aliança de países emergentes).

Amorim, em conversa com Nath, deixou claro que o tema era sensível ao Brasil e a criação de novas barreiras não seria desejada na Rodada. Uma das propostas do Brasil é de que, se a salvaguarda for imposta, não pode ultrapassar as tarifas usadas atualmente.

Nath apenas ouviu, sem dar resposta. Alguns minutos depois, em uma conferência de imprensa, ele deixou claro que a Índia precisa da aprovação de uma salvaguarda para aceitar um acordo. "Isso será crucial", afirmou. "Não temos nenhuma promessa da parte do Brasil de que não vão pressionar por isso", afirmou Nath. Segundo o embaixador da China na OMC, Sun Zhenyu, não há de fato ainda um acordo sobre o tema.

O problema é que o País vive duas saias-justas. A primeira é o fato de se apresentar como um aliado político da China e Índias nas negociações. Amorim não se cansa de dizer que, sem essa aliança, o País jamais teria conseguido influenciar a negociação como fez. O segundo problema é que o governo precisa apoiar de certa forma as demandas do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que defende a criação da salvaguarda como forma de proteger os pequenos produtores brasileiros.

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