A relativa calma que reinou ontem no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) não foi nem de longe acompanhada pelo mercado de câmbio. O dólar disparou 5,6%, para R$ 2,236, apesar de o Banco Central (BC) ter promovido três leilões de venda da moeda americana.

Na máxima cotação do dia, bateu em R$ 2,252. O Ibovespa, que chegou a subir à tarde, recuou 1,01%.

Analistas usaram três argumentos para explicar a forte alta do dólar - que acumula em 2008 ganhos de quase 26% ante o real. O primeiro foi a valorização da moeda americana mundo afora.

O euro, por exemplo, perdia 2,07% no início da noite ontem, cotado por US$ 1,3056, menor valor desde março de 2007. A libra chegou à mais baixa cotação ante o dólar em cinco anos, depois que o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, disse que seu país está "provavelmente" entrando em recessão.

Outro fator de pressão foi o vencimento, amanhã, da primeira operação de venda de dólar (com compromisso de recompra) feita pelo BC em setembro, num total de US$ 500 milhões. Nesse tipo de operação, os agentes se comprometem a revender a moeda para a autoridade monetária. Muitos já teriam ido ao mercado para adquirir a quantia necessária para repassá-la à instituição.

Por fim, segundo alguns operadores, houve uma compra atípica da moeda pela manhã. Um desses profissionais explicou que, durante a crise, o mercado de câmbio tem girado entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por dia. Ontem, o volume chegou perto de US$ 3,5 bilhões.

"Provavelmente foi uma empresa que precisava remeter dinheiro para o exterior", disse um analista. Outro especialista observou que a transação pode estar relacionada às perdas de algumas companhias com apostas no mercado de derivativos - tipo de operação que já provocou prejuízos milionários à Sadia, à Aracruz e à Votorantim.

No mercado, avalia-se que as perdas não ficarão restritas a essas três companhias. Fontes do governo chegaram a dizer que 200 empresas teriam operações do tipo. O volume total de apostas poderia alcançar R$ 50 bilhões, o que não significa necessariamente prejuízos da mesma magnitude.

O BC vendeu US$ 500 milhões em swaps cambiais - tipo de contrato no qual a autoridade recebe um determinado valor corrigido pela taxa básica de juros e a contraparte ganha a variação do dólar no mesmo período. Também foram vendidos cerca de US$ 300 milhões em moeda física. Mesmo assim, o dólar subiu sem parar.

"O BC não quer empurrar o dólar para baixo", argumentou o economista-chefe da corretora Coinvalores, Paulo Nepomuceno. "O objetivo é injetar liquidez", disse, referindo-se à falta de moeda no mercado, decorrente do interrupção de financiamentos por parte de bancos estrangeiros. Na avaliação dele, essa escassez fará com que o dólar oscile entre R$ 2 e R$ 2,15 "por muito tempo".

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), o volume de contratos futuros de dólar para novembro manteve o padrão dos últimos dias. Ontem, o total negociado superou levemente os 300 mil, ante 207 mil na segunda-feira, 261 mil na sexta passada e 354 mil na quinta-feira.

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