SÃO PAULO - Um dos fatores que estavam agregando tensão ao mercado financeiro nos últimos dias foi parcialmente resolvido na tarde de hoje. Coincidência ou não, foi exatamente quando os mercados começaram reduzir um pouco a pressão de baixa.

Ocorreu na tarde desta sexta-feira o leilão para definir o preço de referência das dívidas do Lehman Brothers que será usado na liquidação dos Credit Default Swaps (CDS) - derivativos de crédito - relacionados com o banco, que entrou em concordata no último dia 15 de setembro.

O preço determinado para os papéis de dívida do Lehman ficou acertado em 8,625% do valor de face, o que significa que quem vendeu proteção contra o risco de o banco quebrar terá que pagar a quem comprou o seguro a diferença até os 100%.

O processo ocorreu de maneira "suave a eficiente", disse hoje, durante teleconferência, Robert Pickel, executivo-chefe da International Swaps and Derivatives Association (ISDA), entidade que representa os bancos e instituições financeiras que participam desse mercado e que coordenou a liquidação. A parte operacional do leilão ficou a cargo das empresas especializadas Markit e Creditex.

Procedimentos semelhantes foram usados para a liquidação dos CDSs da Fannie Mae e Freddie Mac, entre outros casos, e deve ocorrer em breve para os derivativos relacionados com o Washington Mutual.

Apesar de se calcular que existam cerca de US$ 400 bilhões em valor nocional de referência para os CDSs do Lehman, o CEO da ISDA avalia que o valor de liquidação dos negócios acabará envolvendo uma quantia de cerca de 2% deste montante, o equivalente a US$ 8 bilhões.

A liquidação financeira destes pagamentos foi agendada para o dia 21 de outubro. Na visão do Pickel, não deve haver grandes dificuldades adicionais dos bancos para honrar suas posições. "Os vendedores (de CDS) já marcam a mercado sua posição", ressalta.

Quando aumenta o risco de um emissor - ou quando há um default -, a instituição que vendeu o CDS precisa depositar garantias colaterais adicionais. O dinheiro dessas garantias será, então, usado para pagar o que se deve.

Além disso, só haverá a liquidação pela diferença entre o que um banco tem a pagar e a receber sobre suas posições no Lehman. Um mesmo banco costuma comprar e vender CDSs de uma mesma instituição.

Ao todo, 358 empresas participaram do leilão de hoje. Esse preço de referência e a data de liquidação vale apenas para essas instituições. Ou seja, outros detentores de papéis não serão obrigados a acompanhar este valor.

Para o CEO da ISDA, o bom andamento do leilão é uma prova de que o mercado de derivativos de crédito de balcão, que está sendo alvo de duras críticas nas últimas semanas como um dos vetores da crise atual, é capaz de coordenar o acerto de posições no caso de uma grande falência.

Na visão dele, o que causou a crise atual não foram os CDSs, mas a tomada de risco exagerada por parte dos agentes nas operações de empréstimos subprime e de crédito para aquisições alavancadas.

(Fernando Torres | Valor Online)

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