GENEBRA - Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), prepara viagem à Índia e aos Estados Unidos para discutir uma maneira de superar o colapso da Rodada Doha, argumentando que isso causou frustração entre a maioria dos países.

A intransigência dos EUA e da Índia quebrou a negociação global para liberalizar o comércio, na semana passada. Para Lamy, isso é ainda mais doloroso porque, segundo ele, cerca de 85% dos pacotes agrícola e industrial estavam praticamente acertados e podiam proporcionar benefícios de US$ 130 bilhões aos países.

A idéia do diretor-geral da OMC é tentar retomar discussões técnicas em setembro para superar o que causou o colapso - o uso de uma medida de salvaguarda pelo qual países com agriculturas frágeis podem frear importações agrícolas em caso de súbito aumento de volume ou queda de preços. Só que Kamal Nath, o ministro de Comércio da Índia, foi recebido em Nova Déli quase como herói e motivo de orgulho nacional por ter resistido as pressões, inclusive do Brasil, para fechar um acordo na OMC.

Em Washington, o influente senador Chuck Grassley, do Comitê de Finanças, responsável por políticas comerciais, já avisou que o Congresso americano não vai apoiar de jeito nenhum um acordo que inclua cláusula aumentando tarifas sobre exportações agrícolas - algo que o Brasil aceitou, para irritação do setor brasileiro do agronegócio.

No governo brasileiro, enquanto o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, só vê possibilidade de retomada de negociações impulsionada por uma grande tragédia que mobilize os políticos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou outro rumo.

Lula disse no sábado que já conversou sobre a retomada com o presidente dos EUA, George W. Bush. Eu disse ao presidente Bush que não é possível que a gente morra na praia depois de tanto trabalho, depois de tanta reunião e de tanta negociação. Acho que, se resolver o problema entre Índia e Estados Unidos, penso que se firma um acordo, afirmou.

Para Lula, aconteceu uma certa anormalidade na Rodada Doha. Nós estivemos tão próximos de fazer um acordo e ele não aconteceu por coisas menores. Mostrando-se otimista, o presidente disse que a retomada das negociações pode ocorrer já dentro de dois meses, algo que Amorim descartava em Genebra.

O presidente anunciou que iria telefonar para o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e discutiria o assunto com o presidente da China, Hu Jintao, durante visita a Pequim na próxima sexta-feira. Lula quer telefonar até para o combalido primeiro-ministro britânico Gordon Brown, que não tem influência direta nas negociações, já que a União Européia é representada pelo comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson.

Na direção oposta do Ministério das Relações Exteriores, o presidente Lula acha que as eleições tanto na Índia como nos Estados Unidos não devem interferir nas negociações, já que os acordos são fechados entre os Estados e não entre os governos.

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