O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, advertiu nesta sexta-feira sobre os riscos de um fracasso no quinto dia de negociações em Genebra sobre a liberalização do comércio mundial, informou seu porta-voz.

"As próximas horas são cruciais. Tudo oscila entre o êxito e o fracasso", afirmou Lamy numa reunião com as delegações da OMC. Segundo ele, o progresso tem sido "dolorosamente lento" desde que ministros de cerca de 35 países iniciaram as discussões na segunda-feira (dia 21), em Genebra, com o objetivo de mapear um acordo sobre um novo pacto global de liberalização comercial.

"Estão sendo registradas certas convergências, mas o ritmo é dolorosamente lento. Temos que mudar para um ritmo maior para aproveitar o pouco tempo que nos resta", acrescentou.

Nesta sexta se reunirão as sete maiores potências comerciais do planeta (Estados Unidos, União Européia, Brasil, Índia, Japão, Austrália e China) para uma última tentativa de desbloquear os expedientes que opõe os países ricos e emergentes.

Os primeiros querem mais acesso para seus produtos agrícolas nos mercados do Norte, e os segundos esperam menos barreiras alfendegárias para seus produtos industriais.

Entre os assuntos sobre os que parece que há uma aproximação estão aspectos relacionados ao acesso aos mercados agrícolas e à redução de tarifas, disseram fontes ligadas à negociação.

Lamy pediu que os países mudem "radicalmente" sua postura ou a reunião fracassará e, em conseqüência, ficará estagnada a Rodada de Doha, iniciada há sete anos a fim de aprofundar na liberalização comercial mundial.

Pontos da negociação

A Índia é tida como chave das negociações . Se o país asiático continuar irredutível, o fiasco estará assegurado, avaliam negociadores.

O grupo de sete membros centrais na negociação foi empurrado ontem a testar possibilidades técnicas, mas também a possibilidade política de concessões. Depois de ter ouvido individualmente os ministros dos sete membros, Lamy começou a delinear as grandes linhas de um acordo em conversa com outros ministros presentes em Genebra.

A proosta sugere que os países ricos possam designar 4% de suas linhas tarifárias como sensíveis, de forma que terão corte bem menor. Para compensar os exportadores desse limite ao comércio, o importador deve oferecer expansão de cotas entre 4% e 5% do seu consumo doméstico.

O mais problemático, porém, é o acesso aos mercados de emergentes, como China, Índia, Indonésia. Esses países querem designar até 18% de produtos especiais, com corte tarifário menor. Lamy indica que ficando em 15% poderia dar jogo. O complicador é sobretudo o mecanismo de salvaguarda especial, pelo qual Índia e os outros querem poder frear importações no caso de súbito aumento de compras ou queda de preços.

O confronto entre exportadores, incluindo o Brasil, e importadores como a Índia e China, é sobre o gatilho que vai acionar a utilização da salvaguarda. A sinalização é de que os importadores poderiam aumentar as tarifas em até 20% das taxas definidas na Rodada Uruguai, ou seja, as que vigoram atualmente.

Outro ponto fora do esboço submetido por Lamy a alguns ministros é o limite para a tarifa mais elevada no comércio agrícola internacional. O Japão, que tem taxa acima de 2.000%, não quer nem ouvir falar em limite por volta de 150%, por exemplo.

Além disso, um entendimento agrícola estará vinculado ao que acontece na área industrial. Nesse caso, o Brasil mostra sinais de flexibilidade para alcançar um compromisso. Mas a Índia de novo é o país que bloqueia tudo, segundo negociadores.

A Índia diz ter dificuldades enormes com a cláusula anticoncentração exigida pela UE, pela qual os países emergentes não poderão utilizar toda a flexibilidade para reduzir menos as tarifas em apenas um setor industrial. As tentativas de entendimento não avançaram por causa de Nova Déli.

Como não havia movimento em Genebra, o presidente dos EUA, George W. Bush, telefonou para o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh. Os dois concordaram que é preciso impulsionar a rodada, no tradicional comunicado de políticos.

Ao sair da reunião de ontem à noite, o ministro indiano de Comércio, Kamal Nath, disse que estava frustrado com a falta de concessões dos EUA e da UE. Por sua vez, a americana Susan Schwab alertou que não há progressos. Outros negociadores confirmam que as chances são ínfimas de um acordo. Mas que a situação está como numa roda-gigante, com alternâncias, inclusive no sentimento de cada um

Hoje, todos os países que participam da reunião expressaram sua "preocupação" com a repercussão do que ocorrer nas próximas horas.

Rodada Doha

A Rodada Doha teve início há sete anos com o objetivo de ajudar os países a desfrutarem de um acordo global de liberalização comercial, mas o processo está atrasado devido a disputas entre países ricos e países em desenvolvimento, que estão em um impasse quanto a questões como redução de subsídios e tarifas agrícolas e abertura nos setores industrial e serviços. Qualquer negociação final, se aprovada pelos negociadores reunidos em Genebra, ainda precisa ter o aval de pelos 153 países membros da OMC.

Com informações da AFP, Valor Online, Agência Estado e EFE

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