A presidente argentina, Cristina Kirchner, e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, sofreram na madrugada de ontem uma derrota sem precedentes, ao perder a votação no Senado que decidiu pela rejeição do projeto de lei do governo que previa pesados aumentos dos impostos - com alíquotas variáveis - sobre as exportações agrícolas. A última chance de aprovar o polêmico projeto desapareceu no momento em que o vice-presidente Julio Cobos, que acumula o cargo de presidente do Senado, emitiu seu voto de minerva para desempatar a votação dos senadores - 36 haviam votado pela aprovação do projeto e 36 pela rejeição.

Além do impacto político negativo para o governo, a derrota no Senado também trará problemas financeiros para a administração dos Kirchners. Sem o "tarifaço" agrário, Cristina deixará de arrecadar mais de US$ 2 bilhões neste ano, essenciais para manter um amplo superávit fiscal que permitisse ao governo manter de forma confortável sua política de subsídios.

"Não estou traindo a presidente. Que seja enviado outro projeto. A história me julgará", disse Cobos, visivelmente nervoso e com voz vacilante, após afirmar que era "o dia mais difícil" de sua vida.

Com seu voto, Cobos - que nas últimas semanas tinha declarado sua oposição ao projeto de Cristina - determinou a derrota da presidente na queda de braço que mantém desde março com a oposição e os ruralistas. O vice disse acreditar que a líder argentina entenderia sua posição. "Estou agindo de acordo com minhas convicções", afirmou.

Após a derrota, Cristina apareceu em público pela primeira vez ontem à noite, na inauguração de uma aeroporto na Província do Chaco, no norte do país. No discurso, evitou referir-se diretamente à votação no Senado, mas lançou indiretas a Cobos. "Nos vários anos de atividade política, algumas pessoas de outros partidos me decepcionaram; e também alguns de nosso partido", declarou.

Embora o projeto de lei tenha sido rejeitado, o governo ainda precisa revogar um decreto, assinado em março, que estabeleceu os aumentos e provocou a rebelião fiscal rural. O tarifaço foi o pivô do conflito que o governo manteve com o setor ruralista durante 128 dias. A crise provocou a paralisação da atividade econômica e a disparada da inflação.

O Senado debateu o projeto por cerca de 18 horas. A reta final da sessão foi acompanhada de panelaços em Buenos Aires e nas principais cidades do interior em protesto contra a presidente Cristina. Após o resultado, às 4h30, os ruralistas celebraram nas ruas gritando o nome de Cobos.

Furiosos com a derrota - e com o voto de Cobos -, militantes kirchneristas acampados na frente do Congresso Nacional, gritaram insultos contra o vice-presidente, a quem chamaram de "traidor", e arremessaram objetos contra o prédio. Seis horas depois, Cobos embarcou para sua província natal, Mendoza, para evitar problemas com partidários dos Kirchners.

La Cámpora, uma organização da Juventude Kirchnerista comandada pelo filho dos Kirchners, Máximo, exigiu ontem a renúncia de Cobos por "deslealdade com o povo".

Os líderes da oposição festejaram a derrota dos Kirchners e ressaltaram que se trata de um divisor de águas na política argentina. Com o revés, a oposição recupera esperanças de poder derrotar o governo nas eleições parlamentares do ano que vem. Elisa Carrió, líder da centro-esquerdista Coalizão Cívica, afirmou que Cristina deveria excluir seu marido das decisões do governo.

No primeiro dia após a derrota dos Kirchners, os mercados reagiram positivamente. O chamado "efeito Cobos" levou a Bolsa de Valores de Buenos Aires a fechar em alta de 0,8%. Já os bônus da dívida pública e a cotação do dólar permaneceram estáveis. O índice de risco do país caiu 23 pontos e encerrou o dia em 634 pontos.

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