BRASÍLIA - Após obter garantia do governo brasileiro de que apoiará a restrição voluntária de exportações de alguns setores industriais para a Argentina, a presidente Cristina Kirchner tomou providências para evitar que os contenciosos comerciais entre os dois países atrapalhem a visita ao Brasil, no fim da semana. Foi excluída da agenda dos próximos dias qualquer reunião entre empresários e governos dos dois países destinada a negociar as limitações de comércio entre os maiores sócios do Mercosul.

O governo Kirchner tem a preocupação de evitar más notícias durante a visita, como seria um eventual impasse na negociação de restrições de exportação entre empresários argentinos e brasileiros. Os argentinos querem impor limites às vendas, no mercado local, de mercadorias brasileiras de setores como calçados, têxtil, linha branca, papel, motocicletas, tratores, máquinas agrícolas e produtos de alumínio. O setor privado brasileiro pediu ao governo que incluísse restrições às vendas de farinha de trigo, leite, vinhos e aerossóis argentinos ao Brasil.

Estava marcada reunião para iniciar discussões entre os empresários, sob coordenação dos governos, na quinta-feira. Foi cancelada, a pedido do governo argentino, que adiou o encontro para dia 24. Também por decisão dos argentinos, foi excluída da visita que Cristina Kirchner fará à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a realização, proposta pelos empresários paulistas, de reuniões " setoriais " entre executivos, destinadas a discutir os problemas localizados de comércio entre os dois países e formular uma estratégia comum para as negociações internacionais de liberalização comercial, a começar pela Organização Mundial de Comércio (OMC).

Os argentinos quiseram manter apenas a visita da presidente, um seminário de caráter acadêmico e rodas de negócio - reuniões de promoção comercial entre empresas argentinas em busca de mercados e eventuais compradores brasileiros. Nada que possa prejudicar o êxito da visita, argumentam os assessores da presidente. Enquanto isso, a Argentina segue com barreiras não-tarifárias, administrando a entrada de importações no país por meio de licenças não-automáticas, emitidas pelos métodos tradicionais, de formulários em papel. A primeira reunião para definir uma espécie de cota para produtos brasileiros deve se realizar em Brasília, na próxima semana.

" Temos de organizar essas reuniões. Acho possível fazer já na próxima semana, até para atender à preocupação dos empresários brasileiros " , disse ao Valor o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, ao confirmar o adiamento dos encontros de empresários.

Ele informou que o ministério realiza estudos para dimensionar o mercado argentino para os produtos sujeitos às limitações de importação, verificar a participação dos exportadores brasileiros e de outros países, e medir a capacidade da indústria local para atender a demanda. " Para ser bem conduzida, uma reunião dessas precisa de mais dados do que dispomos hoje " , comentou. Ramalho argumenta que ambos os países têm interesse em chegar a um acordo, que reduza os efeitos da crise, em um " ano atípico " . Em 2009, as exportações e importações entre os dois sócios caíram mais de 40%, depois de um ano em que o comércio bilateral chegou a um recorde de mais US$ 30 bilhões.

(Sergio Leo | Valor Econômico)

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