O juro médio cobrado nos empréstimos para pessoas físicas caiu em fevereiro para o nível mais baixo desde a criação do Plano Real, em 1994. Dados divulgados ontem pelo Banco Central mostram que o custo médio dos financiamentos ficou em 41,9% ao ano, ante 43% de janeiro.

Nos primeiros dias de março, a taxa caiu ainda mais, para 41,6%. A melhora da inadimplência permitiu que instituições reduzissem a margem de lucro, o que gerou benefício ao consumidor. A queda, porém, não deve continuar nas próximas semanas, já que a iminência do aumento da taxa Selic tem elevado o custo de captação dos bancos, o que anula o efeito positivo da queda do calote.

Estudo mensal do BC mostra que o crédito vive um período de inflexão. De um lado, o juro cobrado pelos bancos cai porque indicadores de inadimplência melhoram e a possibilidade de calote diminui com o crescimento econômico. Mas, ao mesmo tempo, instituições financeiras pagam cada vez mais caro para captar dinheiro no mercado diante da previsão de alta da taxa Selic no próximo mês.

Em fevereiro, essa briga de forças teve resultado favorável para os clientes. No mês, o porcentual dos empréstimos com atraso superior a 90 dias caiu de 5,5% para 5,3%. Isso abriu espaço para que as instituições reduzissem a margem cobrada nos empréstimos, o chamado spread bancário.

Na média geral, o spread caiu de 25,1 pontos em janeiro para 24,3 pontos em fevereiro. Nas operações para as famílias, a redução foi ainda maior: de 31,8 pontos para 30,8 pontos. Isso permitiu que o juro à pessoa física caísse ao nível mais baixo desde 1994 e, ao mesmo tempo, a taxa média de todas os empréstimos recuasse para 34,3%, no segundo menor patamar da série histórica.

Mas o jogo de forças parece mudar em março. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, não previu a continuidade da queda dos juros porque “há um movimento de alta no custo de captação dos bancos motivado pela expectativa de alta da Selic”. “Isso tem compensado a redução dos spreads”, explicou Altamir.

Nos dez primeiros dias do mês, apesar da redução de 0,3 ponto porcentual no spread bancário, o juro médio de todos os empréstimos seguiu inalterado em 34,3%. Isso ocorreu porque o custo de captação dos bancos subiu exatamente 0,3 ponto no mesmo período. No fim das contas, a captação mais cara anulou o efeito do spread menor.

Mesmo nas operações para as pessoas físicas, cujo juro preliminar de março caiu para 41,6%, o custo de captação teve elevação. Nesse caso, de 0,1 ponto na comparação com fevereiro. Apesar disso, a taxa ao consumidor caiu porque a margem dos bancos nessas operações foi cortada em 0,4 ponto e conseguiu compensar o custo de captação maior.

“Essa redução do juro ao consumidor no início do mês parece ser pontual. Nessa briga de forças, a Selic vai acabar falando mais alto e os juros subirão porque o custo de captação dos bancos vai subir ainda mais. Infelizmente, é uma questão de tempo”, diz o professor de finanças do Insper, Ricardo José de Almeida.

Segundo ele, a redução do ritmo de concessão de empréstimos é um dos principais objetivos da política monetária mais restritiva que o Banco Central deve adotar em breve para tentar segurar a inflação.

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