A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou um pouco em junho (0,74%) em relação a maio (0,79%), mas acumulou no primeiro semestre deste ano a maior alta (3,64%) para o período em cinco anos. O mercado financeiro, que previa resultado pior (entre 0,75% e 0,88%), recebeu com relativo otimismo a acanhada desaceleração.

Os alimentos continuam pressionando a taxa e foram responsáveis por metade da variação do índice no mês e no semestre.

O IPCA, que é referência para a meta de inflação do governo (4,5% em 2008) já acumula 6,06% em 12 meses e poderá ultrapassar o teto da meta (6,5%) em julho, admite a coordenadora de índices de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos. Segundo ela, as pressões para este mês serão significativas, e "não é improvável" que o índice esbarre no centro da meta.

Eulina destacou não haver nenhum sinal de reversão na trajetória de alta dos alimentos, já que os preços internacionais e o consumo interno prosseguem em alta. O argumento é que "há evidência de que julho deste ano apresente um IPCA maior do que no ano passado".

Em julho de 2007, o IPCA foi de 0,24%. "Com a continuidade da pressão dos alimentos e a alta dos (preços) administrados, não é improvável que a taxa em 12 meses atinja 6,5% (em julho)", disse a técnica.

Apesar da proximidade do teto da meta, economistas esperam uma perda de ritmo no reajuste dos preços no segundo semestre. Para Luiz Roberto Cunha, economista da PUC-RJ, os resultados do IPCA de junho mostram que a inflação "ainda preocupa, mas talvez o pior do pior já tenha passado".

Ele acredita que a taxa de julho seguirá pressionada e poderá ficar em torno de 0,7%, mas na média do segundo semestre os resultados devem ser menores, com taxas em torno de 0,4%. "Uma coisa é certa: é difícil repetir no segundo semestre os níveis de inflação mensal do primeiro; a média foi muito alta e tende a cair."

O economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, também prevê desaceleração nas altas dos alimentos e variações mais amenas no IPCA nos próximos meses. "Já contando que estou projetando para o fim do ano uma inflação mais próxima de 6,5%, considero uma taxa de 2,65% a 2,7% para o segundo semestre, que ficaria abaixo desses níveis observados no primeiro semestre."

Em junho, os alimentos subiram 2,11% - a maior variação mensal desse grupo desde janeiro de 2003 no IPCA - e responderam por 63%, ou 0,47 ponto porcentual da inflação do mês. O aumento foi o maior para um mês de junho desde o início do Plano Real, em julho de 1994.

Segundo Eulina, no acumulado do primeiro semestre de 2008 os alimentos contribuíram com 1,88 ponto porcentual, ou 52% do IPCA de 3,64% do período. "Ou seja, os alimentos explicam a inflação este ano." Ainda segundo ela, "a alta dos alimentos em 2008 vai ficar acima do ano passado, que já foi uma taxa expressiva".

Em 2007 os alimentos subiram 10,79% e, somente no primeiro semestre, acumularam 8,64%. Ainda de acordo com Eulina, os resultados do IPCA em junho confirmam que "há uma inflação generalizada no caso dos produtos alimentícios".

No primeiro semestre, apenas 20 itens foram responsáveis por 66%, ou 2,4 pontos porcentuais, do IPCA acumulado. Metade deles são alimentos. No topo da lista das principais contribuições está o item refeição fora de casa (alta de 7,94%), seguido dos colégios (4,52%), pão francês (20,95%); arroz (38,21%); tomate (106,41%) e empregado doméstico (5,19%).

Os resultados de junho mostraram que as famílias de menor poder aquisitivo foram mais afetadas pela alta de preços no mês e no semestre. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação de famílias com renda de um a seis salários mínimos teve alta mensal de 0,91%, bem acima do IPCA, cuja faixa de rendimento é de um a 40 salários.

No primeiro semestre o INPC também foi mais elevado (4,26%) e apresentou, assim como o IPCA, a maior alta desde 2003. Segundo Eulina, "as famílias de menor poder aquisitivo são especialmente prejudicadas pela pressão dos alimentos". As informações são do O Estado de S. Paulo

*C/ Flávio Leonel

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