RIO - A inflação mais alta em 2010 traz um reflexo intenso sobre as famílias majoritariamente compostas por indivíduos com mais de 60 anos. O Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade (IPC-3i) subiu 2,72% no primeiro trimestre, o maior resultado para qualquer trimestre desde o início da série histórica, em 2004.

RIO - A inflação mais alta em 2010 traz um reflexo intenso sobre as famílias majoritariamente compostas por indivíduos com mais de 60 anos. O Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade (IPC-3i) subiu 2,72% no primeiro trimestre, o maior resultado para qualquer trimestre desde o início da série histórica, em 2004. O grupo alimentação, que responde por 31% do índice, subiu 5,80%, também recorde da série. André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), ressaltou que o crescimento o IPC-3i no primeiro trimestre carrega efeitos sazonais, mas também mostra uma fase de aquecimento inflacionário. O resultado do primeiro trimestre foi substancialmente maior que os 1,15% observados no quarto trimestre, mas também ficou bem acima dos 1,51% do primeiro trimestre do ano passado, o que aponta para a existência de fatores além da sazonalidade. Dentro dos alimentos, hortaliças e legumes apresentaram alta de 21,46%, bem superior aos 6,39% do quatro trimestre e acima dos 12,31% do primeiro trimestre do ano passado. Já as frutas avançaram 6,48% entre janeiro e março de 2010, contra uma alta de 6,77% no primeiro trimestre de 2009 e uma queda de 3,30% nos últimos três meses do ano passado. Retirando esses dois segmentos da conta, o IPC-3i teria registrado alta de 1,86%, o que também aponta para a existência de pressões inflacionárias além da sazonalidade. Braz destacou as pressões no açúcar, com alta de 24,38% no primeiro trimestre, pouco acima dos 20,17% do primeiro trimestre do ano passado, mas que embute uma pressão que já vinha do quarto trimestre de 2009, quando um crescimento de 11,18% nos preços apontava uma pressão de entressafra anterior ao normal. Outro exemplo de pressão fora do normal vem do leite, que subiu 18,85% nos três primeiros meses de 2010, contra um alta de apenas 2,94% em igual período de 2009. O economista ressaltou a entressafra antecipada e lembrou que os estudos do Centro de Pesquisas Econômicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Cepea) apontavam para uma redução da oferta de leite já no fim do ano passado, período em que tradicionalmente a captação junto aos produtores está em ascenção. "Em 2009 (a captação de leite) recuou em dezembro, o que indica redução de oferta em período atípico, o que dá a entender que tem algo ligado a pasto", frisou Braz."Deve continuar (a alta dos preços) porque as condições climáticas não vão melhorar para produção do leite", acrescentou. Outras pressões nos alimentos para os próximos meses deverão vir da carne bovina e do arroz e feijão. As carnes, apesar da queda de 0,44% no primeiro trimestre, apontam aceleração frente ao recuo de 5,48% dos três primeiros meses do ano passado, decorrência da retomada das exportações do produto. Já o arroz e feijão avançou 7,78% no primeiro trimestre, contra uma queda de 5,39% em igual período do ano passado. Braz creditou a alta principalmente ao feijão carioca, que na coleta de abril já aponta para subidas de preços superiores a 30% em algumas cidades. "A carne vai ser destaque para próximo IPC-3i, junto com leite, arroz e feijão", disse Braz. Mas a alimentação não é a única fonte de pressão sobre os preços da cesta de produtos consumida pelos brasileiros com mais de 60 anos. O empregado doméstico, puxado pela alta do salário mínimo, subiu 4,51% no primeiro trimestre dentro do IPC-3i, acima dos 4,25% de igual período do ano passado. Já os serviços de vestuário avançaram 2,92%, contra 1,63% entre janeiro e março do ano passado. Os serviços médicos, que têm peso de 7,46% no índice, subiram 2,69%, bem acima dos 1,88% de alta no primeiro trimestre do ano passado. Braz explicou que os medicamentos são outra fonte de pressão para os próximos trimestres, já que a alta média de 4,5% deve atingir em cheio os remédios controlados, como cardioterápicos e antidepressivos, que estão entre os de maior peso na cesta do IPC-3i. "O IPC-3i antecipa inflação mais alta para 2010 e, quando desconta influências sazonais, percebe-se a inflação mais alta. A tendência para o segundo trimestre é de inflação menor, mas que deve ficar acima do segundo trimestre do ano passado", disse Braz, lembrando que a alta de 3,87% do grupo transportes foi a segunda maior da série histórica, perdendo apenas para os 5,39% do quarto trimestre de 2004. (Rafael Rosas | Valor)
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