Depois de atingir um recorde em 2007, os investimentos podem desabar diante da crise financeira em 2008 e multinacionais já refazem seus planos. As projeções indicam que países emergentes sofrerão menos, mas podem não ficar imunes ao choque.

Relatório divulgado ontem pela ONU aponta queda dos investimentos de pelo menos US$ 200 bilhões em 2008, em comparação com 2007.

O Brasil é, para as maiores multinacionais, o quinto destino preferido dos investimentos até 2010 e voltou a ser o maior receptor da América Latina.

A crise pode ter interrompido um ciclo de expansão dos investimentos no Brasil. A ONU previa para 2008 mais um ano recorde de investimentos no País, o que pode não ocorrer. A avaliação da ONU foi feita antes da crise que eclodiu na semana passada e, para os especialistas, tudo indica que o cenário deva ser ainda mais negativo diante das falências. A projeção inicial era de que os investimentos no mundo seriam cortados em 10%. Oficialmente, a projeção fala em "estabilização" nos fluxos para os emergentes.


Mas, nos bastidores, economistas admitem que esses mercados também podem sofrer. "A queda será bem maior", disse o secretário-geral da Conferência da ONU para o Desenvolvimento e Comércio (Unctad), Supachai Panitchpakdi.

Antes da crise ter atingido seu auge, a previsão era de que o Brasil poderia superar o volume de investimentos de 2007, de US$ 35 bilhões. A perspectiva era de que "novos recordes" seriam alcançados no País em 2008. Para uma das economistas que prepararam o relatório, Nicole Moussa, não há mais garantias de que as projeções serão mantidas. "Hoje, tudo está em aberto", afirmou.


A América do Sul foi ainda a região com o maior aumento de investimentos em um só ano. A alta foi de 66% entre 2006 e 2007, puxada pelo Brasil. Para a ONU, a região se mostrou resistente aos choques e à desaceleração já apresentada na economia americana em 2007. Por isso, ainda há esperança de que a queda em 2008 não seja tão pronunciada na região e no Brasil. Até agosto deste ano, o ritmo de crescimento dos investimentos era acelerado e o País já havia recebido US$ 25 bilhões.

O certo, segundo uma pesquisa com 300 multinacionais, é que os temores de desaceleração da economia já estavam fazendo os executivos repensar seus investimentos. A pequisa mostra que o número de empresas que vão rever os planos aumentou de forma significativa. Mesmo assim, o Brasil aparece como o quinto destino preferido entre as empresas pesquisadas. Em 2007, 12% dos executivos colocaram o Brasil como um dos destinos. Neste ano, 22% indicaram o País. Graças ao fluxo do primeiro semestre, o ano fechará com alta nos investimentos em relação a 2006, quando o fluxo atingiu US$ 19 bilhões. Para 2009, a ONU admite que o cenário pode ser pior.

O levantamento também confirma o interesse das multinacionais pelos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) donos de quatro das cinco primeiras posições. A liderança da China, porém, é ampla, e o Brasil é apenas o último entre os quatro. Em 2007 ainda houve um volume recorde de investimentos no mundo, chegando a US$ 1,8 trilhão. O volume foi 30% superior ao de 2006 e US$ 400 bilhões superior ao recorde anterior, de 2000. Com isso, os estoques de investimento no mundo chegaram a US$ 15 trilhões.

Os países ricos ficaram com grande parte dos fluxos, cerca de US$ 1,2 trilhão, 33% acima do ano anterior. Até o ano passado, os americanos lideravam entre os destinos, com US$ 232 bilhões e também foram os maiores investidores no ano passado, com US$ 313 bilhões. Os fluxos para a Europa totalizaram US$ 804 bilhões em 2007, 43% acima do ano anterior. Mas o volume para os emergentes atingiu o recorde também em 2007, com US$ 500 bilhões. Metade desses recursos foi para a Ásia.

Para 2008, a melhor das hipóteses é uma queda de 10% no total dos investimentos. Mas a própria ONU admite que será maior. Apenas no primeiro semestre, o número de aquisições no mercado mundial despencou 29%. O maior impacto será nos países ricos, e a resistência dos países emergentes pode ajudar. Mas os economistas admitem que, na melhor das hipóteses, o aumento dos fluxos de investimento aos países emergentes ficará estagnado.

Para Panitchpakdi, não é de hoje que a ONU pede que o mundo debata um novo marco regulatório para o setor financeiro. "É preciso transparência. É inevitável que o Estado tenha de voltar a ter um papel mais pronunciado nesse setor." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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