Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Interior paulista já sente reflexos da receita menor

De janeiro a agosto do ano passado, o empresário Cláudio Hissano, sócio de uma das principais revendas de máquinas agrícolas de Capão Bonito, no sudoeste do Estado de São Paulo, vendeu 22 tratores. De lá para cá, com a crise financeira internacional, as vendas despencaram e o número de unidades comercializadas caiu para seis.

Agência Estado |

A inadimplência, que antes ficava abaixo dos 10%, saltou para 25%.

Os débitos não pagos, apenas desse período, já passam de R$ 200 mil. Pela primeira vez, há bancos retomando tratores por falta de pagamento. "Se a crise se prolongar, não sabemos como vai ser", diz Hissano. Cidades como Capão Bonito, Itararé e Itaberá, que têm sua economia baseada na agricultura de grãos, são as que mais sentem os efeitos da crise internacional na renda do agricultor. O movimento no comércio caiu, a inadimplência cresceu e já há desemprego no campo.

"As terras estão cultivadas, mas o dinheiro sumiu", diz o presidente da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Capão Bonito, Ari Rosso. "Parece que as pessoas estão com medo do futuro." Inseguro e sem crédito, o produtor rural plantou menos e cortou custos, incluindo de mão de obra. O movimento no comércio de Capão Bonito caiu pelo menos 10% de outubro para cá. Pequenas lojas baixaram as portas e as grandes redes, com as lojas vazias, reduziram seus quadros de funcionários.

A Semag Tratores, empresa de Hissano, abriu negociações com os inadimplentes. Ele exibe um calhamaço de faturas não pagas e mostra um trator de R$ 60 mil que foi devolvido pelo produtor, um cliente antigo. O comprador deu 10% de entrada e financiou o restante. A primeira parcela venceu em outubro e não foi paga. Depois de receber o aviso do banco de que o débito seria executado, o agricultor procurou Hissano.

"Ele pediu para guardarmos o trator até que o banco o retome e foi embora para o Japão", conta Hissano, que considera que a crise atual é grave porque o produtor ainda não tinha se recuperado de safras ruins. "O produtor plantou com o custo lá em cima e o preço da soja e do milho caíram." Em Itararé, na divisa de São Paulo com o Paraná, o êxodo rural voltou a ocorrer. Já é possível encontrar retirantes na estrada. Toda manhã, cerca de 100 pessoas se postam à frente da Prefeitura para pedir ajuda. O prefeito César Perúcio (DEM), tem dificuldade para chegar ao gabinete.

Os pedidos dos novos desempregados vão de cesta básica a passagem para tentar a sorte em outra cidade. Muitos são retirantes que vêm do Estado vizinho, onde também a seca afeta a agricultura. O secretário da Agricultura de Itararé, José Carlos Colturato, teme o reflexo da falta de crédito na próxima safra. "O agricultor comprou menos adubo e defensivo e muitos reduziram a área de plantio."
A mecanização das lavouras também contribui para o desemprego no campo, observa o secretário. "As grandes fazendas mecanizaram até a colheita do feijão."

Em Itaberá, na mesma região, centenas de pequenos produtores não conseguiram plantar. "De dois meses para cá, não foi liberado um único financiamento para a agricultura familiar, que é muito forte aqui", diz o agrônomo João Mateus Macedo, da Associação Comercial e Empresarial de Itaberá. Quem plantou, segundo ele, pegou dinheiro a juro ou se endividou nas cooperativas. "O risco é de todo mundo quebrar lá na frente."

Municípios que dependem do setor sucroalcooleiro também sofrem. Em Sertãozinho, na região norte do Estado, as indústrias operam com ociosidade e muitas deram férias coletivas ou fizeram demissões. Segundo o presidente do Centro das Indústrias de Sertãozinho (Ceise), Mário Garrefa, a cidade busca alternativas para reduzir o impacto da crise. "Estamos pedindo às empresas que, ao invés de demitir, deem férias ou façam redução de jornada."

Entretanto, como o atual período é de entressafra, alguma demissão, explica, é normal. "Vamos ter um quadro mais definido na retomada da moagem da cana, em abril", afirma Garrefa. Na avaliação dele, a crise acabou contribuindo para reduzir a especulação que havia no setor. "Tinha caldeireiro ganhando mais do que médico." Ele acredita que o setor sucroalcooleiro está consolidado e que será capaz de retomar o crescimento até o fim do ano.

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG