BRASÍLIA - O esforço fiscal recorde do governo no primeiro semestre do ano foi ofuscado por outra marca histórica, nesse caso negativa: a conta de juros do período também é a mais elevada desde 1991, assim como os juros apropriados em 12 meses até junho. A piora é atribuída pelo Banco Central (BC) à forte valorização cambial e à inflação.

Dados divulgados nesta quarta-feira pelo BC apontam que a economia para os juros de janeiro a junho foi em R$ 86,116 bilhões, equivalente a 6,19% do Produto Interno Bruto (PIB). Os dois números são os melhores dos últimos 17 anos. Já os juros apurados sobre a dívida líquida do setor público no intervalo ficaram em R$ 88,026 bilhões ou 6,32% do PIB. O valor financeiro é o pior da série apurada pelo BC.

Igual classificação vai para o montante de juros acumulados em 12 meses, em R$ 168,704 bilhões. A dívida líquida do setor público atingiu R$ 1,18 trilhão ou 40,4% do PIB, com queda em relação aos 40,6% do PIB que representava em maio. Para este mês de julho, o BC prevê que a dívida se manterá nos 40,4% do PIB.

Ao comentar os números, o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, admitiu que, proporcionalmente, a inflação está pesando mais na conta de juros. Ele destacou que a dívida pública líquida vem crescendo, e sobre essa base mais alta, há o efeito cambial. Como o governo tem ativos dolarizados (as reservas, por exemplo), a taxa de câmbio menor reduz a rentabilidade desses ativos em reais.

A valorização do real frente ao dólar americano no primeiro semestre foi de 10,13%, ante 9,91% no período igual de 2007. Na carga de juros são incorporados os prejuízos da autoridade monetária com o ajuste de contratos de swap cambial reverso, onde o BC paga ao mercado a taxa Selic sobre a variação do dólar. No semestre, os prejuízos com swap somaram R$ 4,8 bilhões.

Lopes notou que apesar de a parcela da dívida atrelada à Selic ter sido elevada de 48% para 54,8% do total, a variação desses encargos ainda estão sob efeito da desaceleração da taxa básica em 2007. Entre julho do ano passado e junho deste ano, a Selic incidente foi de 11,24% contra 13,21% no mesmo intervalo anterior.

Já a dívida atrelada a índices de preços subiu de 27% para 30,3% do total, desde junho de 2007. E como todos os índices de inflação subiram neste ano, eles pressionaram a carga de juros.

Somente a parcela indexada ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é a maior indexação em preços, subiu de 18,4% em junho de 2007 para 22,8% do total, em junho de 2008. A variação desse índice no primeiro semestre do ano foi de 3,64%, e gerou R$ 3,653 bilhões em juros, enquanto cresceu 2,08% no primeiro semestre de 2007, ao custo de R$ 1,809 bilhão em juros. E em 12 meses, o IPCA já subiu 6,06% até junho deste ano, ante 3,69% até junho de 2007.

O representante do BC destacou ainda que a diferença entre o superávit primário e os juros no semestre foi negativa em R$ 1,910 bilhão, gerando o melhor resultado nominal desde período igual de 1993, quando ficou negativo em R$ 1,113 bilhão. A relação com o PIB foi de 0,14%, nesse caso o melhor nível da série.

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