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A desconfiança de consumidores e empresários, a restrição de crédito e o recuo das exportações estão fazendo da indústria a principal vítima, entre os setores da economia, dos efeitos nefastos da crise econômica no Brasil. A avaliação de economistas é que o setor já saiu do mais fundo do poço a que chegou no quarto trimestre do ano passado, mas a recuperação não virá antes do segundo semestre.

Amanhã, o IBGE divulgará os dados da produção industrial de fevereiro. O relatório Focus divulgado ontem pelo Banco Central mostra uma nova revisão para baixo para a produção industrial em 2009, de -2,0% para -2,74%. O diretor de política econômica da instituição, Mário Mesquita, disse que espera uma queda de 1,6% na indústria de transformação em 2009.

O sócio-diretor da LCA Consultoria Fernando Sampaio acredita que a recuperação do setor será lenta, já que o ajuste de estoques e a queda nas vendas prosseguem, ainda que o pior já tenha ficado para trás. Para o professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Julio Sergio Gomes de Almeida, é fato que alguns segmentos já saíram do fundo do poço, como a indústria automobilística, mas novos tombos virão, sobretudo nas atividades de não duráveis, como alimentos e em materiais de construção.

Gomes de Almeida acredita que a expectativa de queda de 1,6% na indústria projetada por Mesquita é realista, "um bom parâmetro", mas acredita que esse resultado só será possível por causa de um cenário um pouco mais positivo no segundo semestre. Até junho, ele acredita que a indústria vai acumular uma perda de 13% na produção em relação ao mês de setembro de 2008, mês que foi o auge da produção do setor no ano passado.

Em quatro meses, de outubro de 2008 a janeiro de 2009, segundo o IBGE, a produção da indústria despencou 18,2%, queda puxada especialmente pelos bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos) e os bens de capital.


Segundo Gomes de Almeida, a indústria tem liderado as perdas na economia, puxada por duráveis e bens de capital, porque a crise derrubou as expectativas que são o principal motor do desempenho desses segmentos. "A expectativa tem a ver com os bens consumidos para o futuro e afetou também o crédito, também fundamental para esses bens", explicou.

Para o professor da Unicamp, as atividades que lideraram as baixas no que chama de "primeira onda" da derrocada industrial devem começar a emitir sinais lentos de recuperação, mas outros devem integrar uma nova onda de perdas nos próximos meses. "Há setores que já deixaram para trás o pior e há uma leva de outros setores, como alimentos e materiais de construção, em que o pior está chegando, batendo a porta", disse.

Fernando Sampaio, da LCA, também considera a restrição de crédito e a desconfiança fatores fundamentais para a recente derrocada da indústria em consequência da crise, mas acrescenta o desaquecimento do mercado externo, com perda das exportações, como outro motivo importante. Segundo ele, o recuo nas vendas externas explica boa parte do diferencial, para baixo, no desempenho projetado da indústria em relação aos serviços, por exemplo. "Para a indústria as exportações são muito mais importantes do que para o comércio ou serviços e o mercado internacional caiu com muita força para os manufaturados", disse Sampaio.

Para Gomes de Almeida, porém, as exportações são um problema menor diante dos impactos da falta de confiança e do crédito. Ele admite que cerca de 25%, em média, do total produzido pela indústria brasileira são exportados, mas avalia que a raiz dos problemas da indústria está nas expectativas. "A crise é industrial por causa das expectativas", disse

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