Por Marcelo Teixeira SÃO PAULO (Reuters) - O frigorífico Independência, um dos maiores processadores de carne bovina do Brasil, está praticamente inativo e deixou de honrar financiamentos, atingido pela queda na demanda externa e pela escassez de crédito.

A empresa, que pediu proteção judicial no Brasil na última sexta-feira e também nos EUA, suspendeu os abates de bovinos em 10 unidades no Brasil, dando férias coletivas para grande parte dos seus mais de dez mil funcionários.

"O tamanho e a velocidade desses eventos nos pegaram de surpresa e nos deram pouco tempo para reagir", afirmou o diretor de Relações com Investidores, Tobias Bremer, referindo-se à situação de queda nas vendas e endurecimento das condições de financiamentos.

A empresa confirmou que deixou de honrar o pagamento de um empréstimo de aproximadamente 100 milhões de dólares junto ao banco JP Morgan.

"O pagamento do principal (desse financiamento) ainda está devido", disse Bremer em uma teleconferência quando questionado por analistas sobre a operação com o banco norte-americano.

De acordo com os documentos do pedido de proteção nos EUA, a dívida total da empresa chegaria a 1,2 bilhão de dólares.

O Independência não é listado em bolsa, mas realizou emissões de bônus para investidores internacionais nos últimos anos, em valores superiores a meio bilhão de dólares.

A empresa possui ao todo 23 unidades. Segundo a assessoria de imprensa, apenas as 10 plantas de abates de bovinos estão sem operar.

Bremer informou que a companhia tem planos de retomar parte dos abates nas próximas semanas.

O Independência havia conseguido uma injeção de capital de 450 milhões de reais recentemente junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Recebeu no final de novembro do ano passado a primeira parcela da operação, de 250 milhões de reais.

Segundo Bremer, a segunda parte, de 200 milhões de reais, deveria ser repassada em meados deste mês.

QUEDA DRÁSTICA EM DEMANDA

A empresa informou que a forte queda na demanda por carne bovina por parte dos principais países importadores levou a um excesso de oferta no mercado interno que derrubou os preços do produto, afetando a lucratividade.

O Independência disse que precisou redirecionar carne que originalmente seria destinada ao mercado externo para o mercado local, assim como outros frigoríficos exportadores, o que gerou "competição predatória e queda nos preços".

"Em janeiro os preços de exportação e os volumes caíram desastrosamente, e devido aos preços altos do boi (no Brasil) a receita com as exportações foi negativa, mesmo com a desvalorização do real", disse a empresa.

Além disso, o Independência informou ter recebido calote em cerca de 20 por cento das vendas externas de carne no último trimestre do ano passado.

Segundo a companhia, os valores atuais de venda no mercado doméstico não cobrem os custos de produção, motivo também citado para suspender os abates.

O Independência informou que os volumes de exportação de carne bovina caíram quase três vezes mais que o recuo nos abates, gerando excesso de oferta no mercado brasileiro.

Sobre crédito, a empresa citou a escassez de linhas de financiamento e o aumento dos juros cobrados. Disse que o custo nas linhas em dólar subiu de 6 para 12 por cento ao ano e nas linhas em reais de 110 por cento do CDI para 170 por cento do

CDI.

Bremer informou que o Independência tem 60 dias para apresentar à Justiça brasileira um plano de recuperação de suas operações.

Outras grandes empresas do setor de carne bovina no Brasil também recorreram a proteção judicial recentemente, como o Margen e a Arantes.

(Reportagem adicional de Santosh Nadgir, em Bangalore)

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