SÃO PAULO - Numa medida radical, que surpreendeu o setor, o frigorífico Independência suspendeu ontem, por tempo indeterminado, o abate de bovinos em suas dez unidades em operação no país. No começo do mês, a empresa já tinha fechado, também por tempo indefinido, a planta de Campo Grande (MS) com a justificativa de otimizar a produção por conta da restrição de oferta de bois para abate.

Desta vez, porém, o problema não é a falta de animais para abate. O que levou o Independência a suspender as operações foram problemas de fluxo de caixa, conforme apurou o Valor. A empresa começou a atrasar pagamento de pecuaristas e acabou decidindo pela parada das unidades (cinco no Mato Grosso, duas no Mato Grosso do Sul, uma em Goiás, uma em Rondônia e uma em Minas Gerais). Procurada pela reportagem, a companhia não se manifestou.

A empresa surpreendeu os bancos e os investidores ao anunciar, na segunda-feira de carnaval, que estava cancelando a oferta de recompra antecipada de duas séries de títulos, de vencimento final em 2015 e em 2017, de valores totais de US$ 300 milhões e US$ 225 milhões, respectivamente, pelo valor máximo de US$ 144 milhões. A recompra seria feita com recursos obtidos no mercado interno, em reais, de forma a reduzir o endividamento externo da empresa. O Independência também não deixou claro ao mercado por qual razão cancelou a transação de mudança em cláusulas financeiras restritivas dos bônus, que determinavam grau de alavancagem máximo e regras para caracterização de alteração no controle do capital da companhia. Os investidores já haviam autorizado a transação, conforme anunciado no dia 4 de fevereiro.

Os rumores eram de que a empresa estava tentando preservar o seu caixa, por não ter mais certeza de que iria receber o segundo aporte de recursos do BNDESPar, acertado em novembro passado, quando o banco entrou no capital da empresa. A primeira parcela de R$ 250 milhões foi liberada em novembro e faltam R$ 200 milhões. Os rumores sobre as razões para isso eram diversos. Muitos diziam que a empresa iria negociar com o BNDES na semana que vem sobre o assunto.

Com a puxada no dólar, a dívida em dólar do Independência cresceu e a empresa deixou de cumprir cláusulas restritivas de seus títulos, que entraram no que o mercado chama de "default técnico". Os preços dos papéis foram para 40% do valor de face. Após a decisão do BNDES de participar do capital da empresa, os papéis voltaram a ser negociados a 66% do valor de face. Mas, ontem, chegaram a sair a níveis de 15% a 35% do valor de face. Os investidores acreditavam que a empresa estava em boas condições de caixa e crédito após a capitalização do BNDES, pois comprava a sua dívida antes do vencimento, e foram surpreendidos pela decisão da cancelamento e pelo não-pagamento aos fornecedores.

Com a decisão de paralisar as operações nas unidades, cerca de 12 mil funcionários do Independência foram mandados para casa por tempo indeterminado.

O Independência faturou R$ 1,469 bilhão nos primeiros nove meses de 2008. A empresa tinha, no fim de 2008, capacidade de abate de 12 mil animais por dia, mas vinha operando com ociosidade de cerca de 40% por conta da falta de boi no mercado.

(Alda do Amaral Rocha e Cristiane Perini Lucchesi | Valor Econômico. Colaborou Patrick Cruz)

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