Por Renato Andrade SÃO PAULO (Reuters) - O Banco Central estima que a inflação brasileira seguirá em patamar elevado até meados de 2010, mesmo com a expectativa de redução no ritmo de concessão de crédito no país e desaceleração das principais economias do globo.

O cenário traçado pelo BC reforça as apostas de que o ciclo de aperto da taxa básica de juro, iniciado em abril, será mantido, até que a autoridade monetária tenha certeza de que as medidas adotadas conseguirão trazer os índices de preço de volta ao patamar desejado.

De acordo com o Relatório de Inflação do terceiro trimestre, divulgado nesta segunda-feira, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) --que baliza a política de metas de inflação do governo-- deve encerrar o ano com alta de 6,1 por cento. No relatório de junho, a projeção era de um avanço de 6,0 por cento.

Para 2009, o BC estima uma inflação de 4,8 por cento, também acima da projeção anterior, que era de 4,7 por cento.

A inflação deve se aproximar do centro da meta somente em meados de 2010, alcançando 4,6 por cento, levemente acima do centro da meta, que é de 4,5 por cento.

ATIVIDADE EM FOCO

Apesar da esperada desaceleração da economia mundial, por conta da crise financeira que se arrasta por mais de um ano, e da queda recente dos preços das commodities, o BC ainda vê riscos para a inflação no país, o que justificaria a piora em suas estimativas.

O forte nível de atividade no país continua sendo a principal preocupação, mesmo considerando a expectativa de moderação no ritmo de expansão do crédito, um dos principais propulsores do crescimento econômico.

"Já tem um certo tempo que nós esperamos uma acomodação do crescimento do crédito, até em função da ação de política monetária que estamos adotando, algo mais próximo de 20 por cento do que de 30 por cento", afirmou o diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita, em entrevista sobre o relatório.

Segundo ele, essa taxa de expansão deve ficar entre 22,5 e 25 por cento este ano. Atualmente, esse crescimento gira em torno de 30 por cento.

Diante da força do nível de atividade no país, o BC elevou para 5,0 por cento sua estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2008. A estimativa está em linha com as expectativas de mercado, que apontam para um crescimento de 5,18 por cento, de acordo com pesquisa divulgado pelo próprio BC nesta segunda-feira.

Para 2009, os analistas esperam um crescimento de 3,55 por cento, levemente abaixo dos 3,60 por cento estimados até a pesquisa anterior. O BC só deve divulgar sua estimativa para a taxa de expansão da economia brasileira no próximo ano no relatório de inflação de dezembro.

EFEITOS COLATERAIS

Outro fator que preocupa o BC é a valorização do dólar frente a outras moedas.

"Em princípio, a desaceleração mais intensa da economia mundial e o recuo dos preços das commodities poderiam contribuir para mitigar as pressões inflacionárias. Por outro lado... o aprofundamento da crise financeira tem sido acompanhado de depreciação de várias moedas nacionais frente ao dólar norte-americano, o que tende a gerar pressões inflacionárias fora dos Estados Unidos", afirmou o BC no relatório.

O governo estabeleceu para 2008, 2009 e 2010 uma meta de inflação de 4,5 por cento, com margem de variação de 2 pontos percentuais, para cima ou para baixo. Até agosto, o IPCA acumulava uma alta, em 12 meses, de 6,17 por cento.

LEITURA POSITIVA

Apesar da elevação das estimativas de inflação, o mercado recebeu com bom humor o documento do BC.

"Os números do relatório são bons, as previsões para 2008 e 2009 subiram marginalmente", afirmou Flávio Serrano, economista sênior do Bes Investimento.

"A principal notícia é que a trajetória a partir de 2009 apontava para uma divergência da meta, subindo, e agora o BC nota que no terceiro trimestre de 2010 ela já estará convergindo para a meta", acrescentou.

"A previsão de 4,8 por cento para 2009 é extremamente positiva", afirmou Tatiana Pinheiro, economista do ABN Amro.

(Reportagem adicional de Vanessa Stelzer)

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