A compra da cervejaria americana Anheuser-Busch pela belgo-brasileira InBev, anunciada oficialmente ontem, foi o maior lance de um jogo que parece ainda estar longe de seu final - a consolidação do mercado. Com o negócio de ontem, 60% do mercado de cervejas do mundo fica concentrado nas mãos de apenas três empresas - a InBev, a britânica SABMiller e a holandesa Heineken.

Mas ontem mesmo analistas já se perguntavam quais seriam os próximos passos das gigantes desse setor.

Com a compra da Anheuser-Busch, a InBev passa a ser líder absoluta no ranking das maiores cervejarias mundiais, com uma receita estimada de US$ 36 bilhões, praticamente o dobro da SABMiller, a segunda colocada. A empresa belgo-brasileira será a primeira em vendas em alguns dos principais mercados mundiais - Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Brasil. E ganha, além disso, uma marca com enorme potencial de se tornar uma potência global - a Budweiser -, algo que ainda falta ao portfólio da InBev.

Para não ficar tão atrás, a SABMiller poderia fazer ofertas às mexicanas Femsa e Modelo, à australiana Fosters ou à canadense-americana Molson Coors, segundo alguns analistas. Outros especialistas, no entanto, trabalhavam com a hipótese de a própria SABMiller tornar-se alvo de aquisição, já que sua posição, em termos de conttrole, seria a mais frágil entre os grandes grupos.

Operação

A InBev vai pagar US$ 70 por ação pela Anheuser-Busch, o que dá à operação um valor total de US$ 52 bilhões. As negociações duraram cerca de um mês. A primeira proposta oficial feita pela InBev, de US$ 65 por ação, ou cerca de US$ 46 bilhões, foi apresentada em 11 de junho. A oferta foi recusada pelo conselho de administração da Anheuser, sob a alegação de que subvalorizava a empresa.

A Anheuser, para se defender da InBev, chegou a anunciar um plano que previa a demissão de funcionários e a aceleração do programa de recompra de ações, como forma de aumentar a lucratividade. A proposta, porém, não foi suficiente para convencer os acionistas. E uma nova proposta de US$ 70 por ação foi rapidamente aceita - a oferta chegou à Anheuser no final da semana, e no domingo à noite o negócio foi acertado.

O presidente da InBev, o brasileiro Carlos Brito, disse que a companhia estava preparada para pagar US$ 70 por ação da Anheuser desde o começo. "Nós tínhamos uma faixa em mente e trabalhamos dentro daquela faixa", disse Brito em um vídeo divulgado no site da InBev. Para justificar a proposta mais alta, a InBev disse que a companhia combinada pode cortar custos em, no mínimo, US$ 1,5 bilhão até 2011. O acordo aumentará os ganhos dos atuais acionistas da InBev a partir de 2010, segundo a empresa.

Para convencer a direção da Anheuser-Busch a aceitar a proposta, a InBev acenou com uma série de agrados. Entre eles, o de manter o tradicional nome da empresa na nova companhia, que passará a se chamar oficialmente Anheuser-Busch InBev. E também a manutenção em St. Louis, no Estado do Missouri, da sede da empresa nos EUA. Além disso, a direção da Anheuser-Busch ganha direito a dois assentos no conselho de administração da InBev. Um dos ocupantes já foi definido: será August Busch IV, o presidente-executivo da Anheuser-Busch que tentou de todas as formas evitar o negócio.

"Hoje é um dia excitante", disse Busch durante o anúncio do negócio. Segundo Carlos Brito, as duas empresas decidiram "virar a página e olhar para a frente, e não para o passado". "Agora nosso compromisso é com os funcionários da Anheuser-Busch para fazer da operação um sucesso", disse Busch.

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