José Leme, de Vitória (ES), não esconde: não terá como pagar a hipoteca de sua casa na Espanha. Assim como ele, 180 mil famílias de imigrantes latino-americanos correm o risco de terminar o ano com dívidas impagáveis por causa das prestações de suas casas.

No epicentro da recessão na Europa, a Espanha deixou de ser o sonho de destino dos latino-americanos para se transformar em um pesadelo.

Ontem, enquanto milhares de latino-americanos dançavam acompanhando o trio elétrico de Daniela Mercury na principal avenida de Madri, o Paseo del Prado, entidades pediam ajuda para milhares de imigrantes que serão os primeiros atingidos pela crise econômica. Estimativas apontam que o desemprego na Espanha já atinge 11% da população, a maior taxa da Europa. A taxa pode chegar a 19% se a recessão de fato se consolidar.

Ontem, nas ruas de Madri, a comemoração era pelo descobrimento da América, em 1492. Mas a festa se transformou em ato de protesto. Em frente ao carro da cantora brasileira, um cartaz dizia: "vendi minha casa na América e estou entregando todo o dinheiro para um banco espanhol". Outro fazia alusão à exploração da América Latina. "Caja Madrid Desde 1492".

Uma das entidades tem um nome que resume a crise: União de Famílias Hipotecadas com Juros Impagáveis. "Viemos trazer nossa frustração. Não somos culpados pela crise, mas somos os que mais vamos sofrer", Juan Carlos Ros, um dos líderes do movimento. Ao seu lado, bolivianos, peruanos, cubanos, paraguaios e vários outros repetiam histórias de desastres financeiros pessoais.

"Muitos vieram em busca de uma vida melhor. Mas a crise os impôs salários indignos, dívidas e ataques xenófobos", alertou. "Queremos um plano de resgate às famílias com dívidas", pediu Ros, enquanto carregava uma faixa dizendo "Zapatero ajuda aos bancos, mas não a população". A idéia da entidade é que o governo crie um fundo de garantia de hipotecas.

Juan Gimenez é o retrato da frustração de muitos latino-americanos. O carpinteiro da República Domincana conta que construiu casas para centenas de espanhóis e hoje não tem como pagar a sua. "Trabalhei por seis anos na construção civil. Hoje, tenho de abandonar a casa que eu tentei pagar", afirmou.

Seu irmão, Carlos, chegou há oito meses para tentar a sorte em Madri. "Até agora não consegui emprego", afirmou. "Se alguém hoje me perguntar se deve tentar morar na Espanha eu digo com todas as letras: não. A economia da Espanha está no chão", afirmou.

Um grupo de brasileiras de Maracás (BA) também alerta que a situação é "crítica". "A situação está muito difícil e só piora", afirma Roseane Souza.

A crise vem se somar ao fato de que muitos já vivem em uma situação complicada com a falta de vistos. "Seu eu pudesse falar com o presidente Lula, pediria a ele para insistir no nosso direito de ir onde quisermos sem ser barrados como criminosos", afirmou a baiana Maria Aparecida Golnvacel Cortes.

O Itamaraty atacou abertamente o novo pacote de leis antiimigração da Europa que prevê controles totais sobre a entrada de imigrantes e ainda a expulsão daqueles que estejam em situação irregular. A lei promoverá apenas a entrada de estrangeiros que sejam de interesse para as economias européias.

Se há poucos meses o problema era a entrada dos brasileiros, a ONU revela ao Estado que o problema hoje também vai no sentido contrário. Em menos de dois meses, 200 brasileiros foram resgatados pelas Nações Unidas para poderem voltar da Europa ao Brasil. Não tinham sequer dinheiro para comprar a passagem de volta.

A artista Flávia Braga vive há 22 anos na Espanha e é taxativa. "Quem chegou há muito tempo tem emprego estável. Mas quem chegou agora está sofrendo muito", disse. "Achar que vai chegar aqui e fazer é vida hoje é uma ilusão. Temos um endurecimento nas políticas de migração e agora uma recessão."

Em um dos últimos arros alegóricos, um boneco enforcado. "Isso é o que vai acontencer com muitos que estão hoje aqui se nada for feito", afirmou Diego Espíndola, um colombiano de 34 anos. Enquanto isso, Daniela Mercury tentava dar seu apoio. "Tudo vai dar pé", dizia, em referência ao refrão de um reggae. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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