O lobby está uma tristeza só. O Hotel Glória, fundado em 1922 num endereço privilegiado, de cara para a Baía de Guanabara, no Rio, fecha as portas para obras no dia 4 de outubro.

Apenas 20% dos 610 quartos estão ocupados. Os funcionários estão inconsoláveis. Todos, cerca de 300, alguns com mais de 40 anos de trabalho na casa, foram demitidos.

Mais da metade já foi mandada embora. Os que continuam trabalhando já receberam o aviso prévio. O novo dono, o megaempresário Eike Batista, vai reabrir as portas em dois anos e promete recuperar o glamour do Glória, inaugurado com pompa pelo então presidente Epitácio Pessoa no centenário da Independência do Brasil.

A promessa não alivia a tristeza de gente como José Meirelles de Almeida, de 73 anos de idade e 43 trabalhando no hotel. "Seu Meirelles" tinha 15 anos quando foi contratado. Começou arrumando as camas.

Cresceu, aprendeu tarefas e chegou à portaria. Esbanja orgulho quando conta que já abriu as portas do Glória para Fidel Castro e os presidentes Lula, Fernando Henrique e Itamar Franco. Ao saber da notícia da venda para Eike Batista, desconfiou que alguma coisa ia mudar. Mas esperava continuar no posto. A demissão o deixou arrasado.

"Chorar, eu não chorei. Acho que o choro vai vir na hora de ir embora de vez. O que é que eu vou fazer longe daqui?" A pergunta martela também a cabeça de José Pedro dos Santos, 40 anos de hotel, José Evangelista da Costa, 36 anos de casa, e Daniel Matias, 34 anos de trabalho no Glória. "Ninguém conta pra gente o que vai acontecer. Só sabemos que o novo dono mandou todo mundo embora sem querer saber quem nós somos. Isso é triste", lamenta Evangelista. "Nós fazemos parte da história do hotel. Lembro do Lula sentado ali no segundo andar, quando ele era só sindicalista", lembra José Pedro.

Ontem, a REX, empresa do grupo EBX, de Eike Batista, entrou com o pedido de autorização na prefeitura para começar a reforma. Em 180 dias, a Secretaria de Urbanismo deve liberar a obra. A fachada, tombada, será preservada, mas terá a cor original. Eike vai gastar R$ 200 milhões na reestruturação. O hotel ficará com apenas metade dos quartos, transformados em amplas suítes. Mais de 25% da área de 45 mil m2 vai abrigar os escritórios do Grupo EBX. A reforma inclui o entorno do hotel e o teatro.

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