BRASÍLIA - O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, fez hoje duras críticas à atuação do sistema bancário doméstico, que cortou o crédito no pico da crise financeira, e afirmou que talvez o governo deva adotar medidas restritivas, dar uns joelhaços para que os bancos entendam qual é a missão de cada um. Em entrevista à agência RBS, o ministro acusou o sistema financeiro nacional de ter tomado uma atitude ruim com a retenção dos empréstimos. O que eu disse é que, ao menor sinal de crise, saiu todo mundo correndo.

É uma atitude ruim, porque o banco tem de ver o setor produtivo como parceiro, não pode só emprestar dinheiro quando o sujeito não precisa", afirmou Bernardo, depois de ponderar que o sistema bancário brasileiro "é sólido".

"Eu tenho dinheiro aplicado e fica o gerente ligando para ver se eu não quero financiar alguma coisa. Quando eu tenho dificuldade, ele some", continuou. "Estamos dialogando, mas talvez precise dar uns joelhaços para o pessoal entender qual é a missão de cada um", disse o ministro, explicando o que quis dizer com a expressão "joelhaços".

"Temos de criar condições para que funcione normalmente (o sistema bancário). Se não, talvez aplicar medidas restritivas. O governo tem de exercer, também, atividade regulatória. As cooperativas de crédito têm crescido muito, temos de prestigiá-las. Os bancos públicos não vão dar conta de tudo", disse Bernardo.

Ele afirmou ainda que a recessão mundial trará um primeiro semestre muito difícil para o Brasil, em 2009. Mas acredita que no segundo semestre já haverá "um cenário de saída da crise" financeira.

Ele destacou ainda que que diante das previsões de retração no dinamismo da atividade, a geração de empregos deve cair "bastante". O ministro lembrou que até agora, em 2008 já foram criadas mais de 2 milhões de vagas com carteira assinada. "Se gerarmos 1,5 milhão de empregos, será um número expressivo, mas quase 700 mil a menos do que neste ano, uma queda brusca", afirmou.

"Precisamos de mecanismos que possam ajudar a manter a produção", prosseguiu o ministro, citando que a reforma tributária - cuja votação foi adiada para março - pode estimular emprego por prever redução de impostos. Ele assinalou também que os bancos públicos deverão garantir a demanda por financiamentos. "Queremos manter todo apoio à iniciativa privada, para que a produção não desacelere tanto", completou o ministro.

Bernardo confessou ainda que sua equipe projeta alta real de 3,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, embora o ministério da Fazenda tenha previsão de 4% de alta. "O ministro Guido Mantega (da Fazenda) nos convenceu que devíamos trabalhar com 4%. Se cruzarmos os braços e ficarmos observando, não vai dar nem 3%".

Ele afirmou ainda ter a expectativa de ajuda da política monetária para evitar uma desaceleração econômica muito forte, com cortes de juros em 2009.

"No mundo inteiro, as taxas estão caindo. Até o começo de outubro estivemos em situação diferente e o Banco Central trabalhava para conter a inflação. A situação mudou. Temos de cuidar da atividade econômica, pois essa demanda que ainda está aquecida por conta do emprego, tende a diminuir no começo do ano. Provavelmente vamos ter menos pressão inflacionária, abrindo espaço para o Banco Central fazer a política monetária ajudar a economia", disse o ministro.

Sobre a manutenção dos investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ano que vem, o ministro do Planejamento disse que o governo continuará "com uma política fiscal responsável", citando que a economia para o pagamento de juros em 2008 está elevada.

"Em 12 meses, estamos com superávit primário de 4,6%, para a meta de 3,8% do PIB este ano", continuou ele. "O resultado de janeiro a setembro é pornográfico: 5,6% do PIB, e não vamos diminuir a meta para 2009. Onde houver condição de economizar, vamos cortar. Mas onde precisar, vamos aplicar, como no fomento às empresas", concluiu Bernardo.

(Valor Online)

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