No dia mais agudo da crise financeira internacional, quando os mercados foram tomados pelo que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chamou de momento de irracionalidade, de comportamento de manada, o governo baixou um conjunto de medidas para socorrer os exportadores. Conforme antecipou o Estado no sábado, bancos de fora do País terão acesso a dólares das reservas internacionais para financiar o comércio exterior.

Eles entregarão títulos da dívida brasileira e outros papéis de primeira linha ao Banco Central (BC)e receberão dólares em troca.

Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico em Social (BNDES) recebeu um reforço de R$ 5 bilhões para linhas de financiamento de pré-embarque de mercadorias destinadas à exportação.

Numa terceira frente, o BC aumentou a oferta de proteção cambial ao mercado, por meio da venda de contratos chamados de "swap cambial" - nos quais a autoridade monetária se compromete a pagar aos bancos a variação cambial, por um período determinado. A medida equivale a uma venda de dólares ao mercado. As decisões foram anunciadas conjuntamente por Mantega e pelo presidente do BC, Henrique Meirelles.

Meirelles explicou que o comércio exterior vem sendo afetado pela crise porque o Brasil é grande exportador de commodities - o tipo de mercadoria cujo preço tende a cair num cenário de desaceleração econômica como o que se vislumbra para os próximos meses. "Isso leva a uma certa expectativa que países exportadores de commodities possam ter uma moeda menos apreciada", disse. "Isso é uma parte da questão." A outra é que o comércio exterior brasileiro é "fundamentalmente" financiado em dólares - moeda que, em razão da crise nos EUA e na Europa, tornou-se rara no mercado.

Segundo Meirelles, isso "impacta não só a exportação, mas também o crédito em reais, na medida em que a contrapartida em reais também diminui". Por isso, todos os esforços do governo ontem foram no sentido de fornecer dólares aos exportadores e acalmar o mercado. Logo pela manhã, a venda dos swaps começou a ser operada. As outras duas medidas foram anunciadas à tarde, antes da reunião do conselho político, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu a crise com os líderes no Congresso Nacional.

Na avaliação de Mantega, a "irracionalidade" que tomou conta do mercado financeiro ontem se deveu a dois fatores, ambos relacionados à perda de confiança nas instituições financeiras. Em primeiro lugar, o pacote de ajuda de US$ 850 bilhões aprovado na sexta-feira passada pelo Congresso dos Estados Unidos ainda não foi posto em prática e depende de decisões que ainda pendentes.

Em segundo, o quadro da crise se agravou na Europa, onde fracassou a tentativa de aprovar um pacote semelhante ao dos Estados Unidos, no valor de 300 bilhões. Como alternativa, os governos europeus vêm dando garantias de cobertura nos depósitos bancários, para evitar uma corrida bancária.

O Brasil, segundo admitiu Mantega, não está imune aos efeitos da crise - que é talvez a pior desde 1929 e cuja duração não será curta. Porém, as turbulências atingem os países de maneiras diferentes. "Uma diferença fundamental é essa: nos Estados Unidos, na União Européia, há problema de solvência, de ativos podres", comentou. "Aqui não há ativos podres." Ele acrescentou que perdas em bolsa - como as ocorridas ontem - são inevitáveis, mas elas não refletem problemas de qualidade nos ativos, como nas economias centrais.

A crise chegou ao Brasil na forma de "estrangulamento das linhas de crédito", disse Mantega. "Acredito que a situação aguda deverá se dissipar, porque é impossível imaginar que vai continuar tendo um sistema financeiro mundial travado, que é como ele se encontra hoje."

A retomada das linhas de financiamento, porém, não ocorrerá nas mesmas condições de antes da crise. "Certamente, teremos menos crédito, taxas de juros mais elevadas, e a conseqüência será o crescimento menor da economia mundial", avaliou o ministro. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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