BRASÍLIA - O compositor e cantor Gilberto Gil demitiu-se, ontem, do cargo de ministro da Cultura, e será substituído pelo atual secretário-executivo, Juca Ferreira, seu braço direito. Gil informou que o presidente designará Juca, primeiro, como interino, devendo efetivá-lo na volta de sua viagem à China, na próxima semana.

A permanência de Juca Ferreira manteria a cota do PV no governo, além de assegurar a manutenção de alguns dos principais programas da pasta, por ele idealizados. Segundo um ministro próximo ao presidente, é Ferreira quem, ao longo desses cinco anos, tem discutido o orçamento da Pasta com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - É o mais ministro de todos os secretários-executivos , disse.

Gilberto Gil declarou-se feliz pelo fato de, pela primeira vez após outras duas tentativas anteriores , o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter-se mostrado sensível aos seus pedidos para deixar o cargo. O ex-ministro lamentou, entre as frustrações, sua pasta não ter atingido um orçamento equivalente a 1% do Orçamento Geral da União. Mas assegurou que deixa bons legados, como o Plano Nacional da Cultura e a inserção cultural internacional do Brasil. Convidado a escolher uma composição sua que pudesse definir o governo ele disse que ofereceria, como jingle, a música Refazenda.

Para o cantor, o governo Lula significa uma refazenda da vida, da gestão, da responsabilidade com a administração dos recursos públicos e privados. Segundo ele, durante a conversa, Lula citou como exemplo dessa renovação a valorização da agricultura familiar como uma maneira de desenvolver o país, diminuir a desigualdade social e transformar o Brasil em uma alternativa para os combustíveis renováveis. Tivemos várias conquistas ao longo desses anos , acredita o ex-ministro.

Gil disse não se incomodar com as críticas daqueles que o acusaram de manter as atividades artísticas mesmo durante o período em que era ministro da Cultura. Eu sou artista, permaneci artista. Só pedi agora para deixar o cargo porque as demandas da carreira começaram a aumentar . O cantor lembra que ouviu ataques desde os tempos em que foi convidado para o cargo.

Mesmo assim, não acha que a dupla militância tenha atrapalhado suas tarefas de gestor. Para ele, a sua atividade paralela ajudou a divulgar o Ministério da Cultura, elevando-o a outro patamar não apenas no Brasil, como no exterior. Também fortaleceu nossas relações com alguns organismos internacionais, como a ONU e outros governos sulamericanos e africanos, por exemplo. Houve uma sinergia entre o trabalho do ministro e do artista, ao invés de um estorvo ou empecilho, como alguns querem acreditar , declarou Gil.

Quando assumiu o cargo de ministro, Gil estimava que passaria 80% de seu tempo como ministro e outros 20% dedicando-se à carreira artística. O problema, para ele, é que nos últimos tempos a balança começou a demonstrar um desequilíbrio pró atividade artística. Gil lançou um disco novo, retomou o ritmo das composições, um novo projeto denominado Bandeiroso , envolvendo a influência da banda larga e da internet na vida dos brasileiros e intensificou a agenda de shows.

O agora ex-ministro revelou que desde o final do primeiro mandato, maturava a idéia. Teve uma primeira conversa com o presidente, mas acabou convencido a permanecer. No ano passado, nova recaída, novo convencimento. Agora, depois de um mês de férias - ao qual todo funcionário público tem direito - seguido de 40 dias de licença aprovadas pelo próprio presidente, Gil viu que não havia outra saída. Mesmo assim, o sentimento é de saudade depois de cinco anos de convívio intenso junto a esse governo .

Antes da conversa, o presidente já dava sinais claros de conformidade com a decisão de Gil de deixar o governo. Acho que o Gil teve uma recaída ao decidir voltar a ser artista . O presidente declarou também que o então ministro voltara a priorizar o que era importante. O Brasil não pode prescindir de Gil só na política , elogiou Lula.

Gil deixou claro que não é apenas do cargo de ministro que decidiu se afastar. Filiado ao PV, ele admite que poderá deixar o partido para ter mais tempo livre.

(Paulo de Tarso Lyra | Valor Econômico. Colaborou Cristiano Romero)

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