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Programado para junho, o edital para a escolha das empresas ou consórcios que vão construir três garagens subterrâneas no centro de São Paulo ainda nem foi para o papel. Com atraso de dois meses, a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), responsável pela fiscalização dos projetos, garante que o edital será publicado ainda este mês.

"Alteramos o prazo porque estamos fazendo uma análise mais cuidadosa da concessão e preparando os elementos básicos do projeto", afirma o diretor de Desenvolvimento e Intervenções Urbanas da empresa, Rubens Chammas.

Em reportagem publicada pelo Estado em outubro de 2006, a empresa havia assegurado que as garagens estariam prontas em 2008, um objetivo do então prefeito José Serra (PSDB).

Na primeira fase, serão construídas as garagens subterrâneas do Pátio do Colégio, com 350 vagas de capacidade, do Mercado Municipal, com 490, e da Praça Ramos de Azevedo, com 450. Juntas, somam 1.290 vagas, um número ainda insuficiente para acabar com um déficit de 10 mil vagas na região, de acordo um levantamento encomendado pela Emurb entre 2005 e 2006.

O debate sobre a criação de garagens subterrâneas no centro se arrasta desde a década de 1950, quando os prédios foram construídos sem garagens. Os primeiros projetos começaram a ser discutidos durante a gestão do ex-prefeito Jânio Quadros (1986-1989), que trouxe a idéia da Europa. Mas a solução proposta para a já crítica falta de vagas na cidade gerou polêmica. Ambientalistas temiam que as construções afetassem o lençol freático e áreas verdes. Outra preocupação era que o sistema viário acabasse ainda mais sobrecarregado - acreditava-se que os estacionamentos subterrâneos estimulariam o uso de automóveis.

Com o aumento da frota de veículos na cidade, que hoje ultrapassa 6 milhões, o tema foi periodicamente voltando à tona. No fim dos anos 90, duas garagens subterrâneas foram construídas: uma sob a Praça Alexandre de Gusmão, no Jardim Paulista, outra sob a Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, em Pinheiros. Em 2004, a Câmara Municipal aprovou projeto que autorizava construção de mais 11 - nove no centro e duas no Parque do Ibirapuera. Ficou no papel.

"O crescimento da frota é muito superior ao da população. De um lado, temos congestionamento; de outro, falta de vagas", lembra Renato Anelli, professor titular e coordenador da pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos.

O alto investimento, em torno de R$ 20 milhões, é um dos fatores que emperram o processo. "A licitação para garagens subterrâneas é uma novela. Acredito que há falta de empreendedores interessados, já que a empresa é responsável por todo o processo, que é complexo, caro e muitas vezes não traz o retorno satisfatório", diz Sérgio Murad, presidente do Sindicato das Empresas de Garagens e Estacionamentos do Estado de São Paulo (Sindepark). A construção de uma vaga subterrânea custa em torno de R$ 40 mil. Segundo ele, a Prefeitura poderia arcar com os custos dos projetos de interferência do subsolo e as obras de acesso nas proximidades.

Custos

Como o mapeamento do subsolo da cidade é insuficiente, as empresas têm de fazer o roteiro de tubulações de água, gás, esgoto e telefone. A remoção ou remanejamento de interferências encarece o projeto. Se for encontrado um sítio arqueológico, por exemplo, as obras têm de ser interrompidas. E há uma boa chance de que isso ocorra nas escavações do Pátio do Colégio. "É uma obra complexa por causa do lençol freático e da instabilidade do solo. As construções subterrâneas são de alto risco, a exemplo das escavações para o prolongamento da linha de metrô em Pinheiros", observa o professor Anelli.

A insatisfação das concessionárias que participaram dos consórcios para a construção de garagens na região do Hospital das Clínicas e do Trianon também pode afastar possíveis interessados. O aumento das tarifas depende da autorização direta do prefeito e os dois estacionamentos mantiveram o mesmo preço por sete anos. "O aumento deveria ficar a cargo da empresa, conforme as variações de mercado e de demanda", defende Marco Antonio Ramos de Almeida, superintendente geral da Associação Viva o Centro, que reivindica o projeto há quase 20 anos.

"O País teve aumento da inflação e reajustes de salário, e não fomos autorizados a repassar esses custos para a tarifa. Tivemos de buscar dispositivos legais para aumentar o preço", afirma Hélio Cerqueira Júnior, diretor da Estapar, que participou dos consórcios dos dois empreendimentos.

Segundo Cerqueira Júnior, a Prefeitura se comprometeu no contrato a proibir vagas de Zona Azul e a existência de estacionamentos irregulares no entorno das garagens subterrâneas. "Nas proximidades do estacionamento Trianon, a Prefeitura permitiu a utilização da Zona Azul na região por muito tempo. Além disso, dobrou o número de estacionamentos irregulares, que cobram a metade", diz.

Ele não sabe se a empresa conseguirá recuperar o alto valor investido nos 30 anos que dura a concessão. O investimento total para a construção da garagem Clínicas foi de R$ 31 milhões e o da Trianon, de R$ 16 milhões. "Temos esperança de retorno com a garagem Clínicas, mas sabemos que ele não virá com o estacionamento da Trianon", diz. A Emurb foi procurada pela reportagem para comentar essas observações, mas não quis manifestar-se.

A criação da garagem subterrânea do Pátio do Colégio atenderia a motoristas que circulam por edifícios comerciais e o centro financeiro da região da Rua Boa Vista. O advogado William Adib Dib Júnior, por exemplo, utiliza seu automóvel todos os dias para ir de casa, na Vila Nova Conceição, até o trabalho, na Rua 15 de Novembro. Ele paga R$ 300 por mês para deixar o carro no estacionamento do Jockey Club de São Paulo, do qual é sócio. Se não fosse isso, pagaria R$ 500. Apesar do preço elevado, o estacionamento é cheio e tem até fila de espera para mensalistas. "Acho que seria uma boa alternativa ter uma garagem subterrânea na região", diz o advogado.

Já Humberto Canata trabalha há 20 anos como operador da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) e há nove desistiu de usar o carro para ir até o centro. Ele mora em Guarulhos e dirige até o metrô Penha, onde deixa o automóvel em um estacionamento, pelo qual paga R$ 60 por mês. Canata diz que gosta da idéia do estacionamento subterrâneo, mas considera que criar 350 vagas ainda é muito pouco para a demanda.

O estacionamento New Center, que fica no número 75 da Rua Boa Vista, cobra R$ 380 por mês e há fila de espera para mensalistas. Um pouco adiante, o Tamar Park decidiu não ter vagas para mensalistas porque, segundo o atendente, financeiramente não compensa: cobra R$ 15 por hora e vive cheio.