LONDRES (Reuters) - Os líderes do G20 (grupo de países desenvolvidos e emergentes) se reúnem na quinta-feira em Londres para discutir saídas para a pior crise econômica global desde a década de 1930. Serão discutidas medidas fiscais e monetárias para retomar o crescimento, mudanças nos marcos regulatórios do sistema financeiro e uma reforma de instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional.

Preocupados com o abalo à confiança global caso haja discordâncias frontais entre seus integrantes, os líderes do G20 estão sob pressão para demonstrar unidade na cúpula que terá como anfitrião o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown.

Mas as fissuras já começaram a aparecer --especialmente a respeito dos pacotes de estímulo econômico e das regras para o setor financeiro.

A seguir, alguns resultados concretos que podem ser esperados da cúpula.

ESTÍMULO FISCAL E MONETÁRIO

Melhor resultado para a cúpula: um compromisso com termos fortes para aumentar os gastos e fazer o que for necessário, de forma coordenada, para recolocar a economia global nos trilhos. E que não haja discordâncias entre os países sobre o melhor caminho a seguir.

Resultado mais provável: um firme compromisso de agir como for necessário para retomar o crescimento. França e Alemanha já dispararam críticas contra planos para realizar gastos que consideram excessivos.

A posição do G20:

Esboço de comunicado: nenhum novo compromisso, além de dizer que "estamos comprometidos em cumprir a escala de esforço sustentado necessária para restaurar o crescimento e ao mesmo tempo garantir a sustentabilidade fiscal de longo prazo". A respeito das instituições financeiras: "Estamos comprometidos em realizar todas as ações necessárias para restaurar o fluxo de crédito".

Estados Unidos, Japão, China e Grã-Bretanha manifestam apoio a novas medidas fiscais para estimular a demanda, pois acham melhor agir agora em excesso do que hesitarem e descobrirem mais tarde que não fizeram o suficiente para impedir uma piora ainda maior.

Grande parte da Europa continental vê essa estratégia com ceticismo, argumentando que já foram tomadas muitas medidas e que é preciso dar uma chance para que funcionem, antes de que os governos se comprometam com novos gastos, diante do precário estado das finanças públicas de muitos países.

Uma área de real unidade é entre os Bancos Centrais, que estão usando ferramentas de política monetária não-convencionais (como taxas de juros próximas a zero) ou considerando seu uso. Só o Banco Central Europeu está hesitando, em parte devido a restrições legais.

REFORMA E RECURSOS DO FMI

Melhor resultado para a cúpula: um sólido compromisso de ampliar os recursos do FMI com uma quantia grande e específica --pelo menos dobrando o fundo atual de 250 bilhões de dólares, com contribuição de antigas potências e dos emergentes.

Um acordo detalhado e com prazos sobre como tornar o FMI mais representativo, dando mais influência a grandes economias emergentes, como China, Índia e Brasil.

Resultado mais provável: um sólido compromisso para duplicar os cofres do FMI, com base principalmente em contribuições de países desenvolvidos, mas apenas uma promessa de transformar as instituições internacionais.

A posição do G20:

Esboço de comunicado: deixa uma lacuna na quantia que o G20 aceita disponibilizar para as instituições financeiras internacionais, e também a respeito das quantias individuais.

Os EUA propõem triplicar a quantia, hoje de 250 bilhões de dólares, que o FMI tem à disposição para apoiar economias em dificuldades. Washington sinaliza que poderia oferecer até 100 bilhões de dólares.

O FMI e os líderes europeus querem a duplicação dos recursos do FMI, e a União Europeia está disposta a oferecer cerca de 75 bilhões de dólares. O Japão já ofereceu 100 bilhões de dólares, mais 20 bilhões de dólares para o Banco de Desenvolvimento da Ásia. A China recentemente manifestou entusiasmo com a ideia.

Mas o tamanho de uma eventual contribuição da China e de outros países com reservas abundantes, como a Índia, deve depender das medidas destinadas a tornarem as instituições financeiras globais mais representativas da nova ordem econômica.

Austrália, Brasil e Rússia também querem mais direitos de voto para os países em desenvolvimento.

REGULAMENTAÇÃO

Melhor resultado para a cúpula: um acordo detalhado sobre as exigências de capital para os bancos, regulamentação das agências de avaliação de crédito ("rating"), regras para instituições que assumem riscos, regras para fundos de hedge e repressão à evasão fiscal. Um acordo para estabelecer sistemas precoces e eficazes de alerta e monitoramento dos mercados financeiros, inclusive dando mais poderes às agências reguladoras.

Resultado mais provável: um compromisso de melhorar drasticamente a regulamentação --com referência a grande parte dos itens acima--, mas sem adotar prazos para a implementação.

A posição do G20:

Esboço de comunicado: Não há detalhes específicos sobre as proporções de capital exigidas, menção a paraísos fiscais específicos, regras para os fundos de hedge. O Fórum de Estabilidade Financeira recebe um papel ampliado, com todos os países do G20 como membros.

A forma de fiscalizar bancos e operadores dos mercados financeiros nos países desenvolvidos, que estão na origem da atual crise, é uma área abundante em discordâncias entre os governos globais.

Alguns, como a União Europeia, querem entidades abrangentes, multinacionais, com fortes poderes para impor regras rígidas. Outros, como Grã-Bretanha e EUA, querem mudanças regulatórias, mas preferem uma abordagem mais branda.

Muitos países em desenvolvimento estão ávidos por verem o mundo desenvolvido adotar medidas duras, já que uma crise que começou como puramente financeira agora se espalhou para todos os cantos do planeta.

Provavelmente serão definidos compromissos para coibir riscos bancários excessivos, para garantir maior transparência nos mercados financeiros --particularmente no que diz respeito aos fundos de hedge e aos balanços dos bancos--, para dar mais abertura tributária e para que haja uma maior exigência de capital para os bancos.

E mais países estão aceitando a ideia de oferecer um seguro para que os bancos se protejam de prejuízos com ativos "tóxicos."

PROTECIONISMO COMERCIAL

Melhor resultado para a cúpula: um compromisso dos EUA e da Índia com um cronograma que leve a uma conclusão bem-sucedida da Rodada de Doha da abertura comercial global, lançada há quase sete anos. Uma promessa de todos para evitar quaisquer medidas protecionistas durante a crise.

Resultado mais provável: um reconhecimento da urgência de um acordo comercial global, mas sem prazos, junto com palavras firmes renunciando ao protecionismo.

A posição do G20:

Esboço de comunicado: prorroga por 12 meses seu compromisso de não criar novas barreiras ao comércio e aos investimentos. Reitera o apelo por uma rápida conclusão da Rodada de Doha.

A Organização Mundial do Comércio alerta que o comércio global deve cair 9 por cento neste ano, maior redução desde a Grande Depressão. Isso gera pressão sobre os EUA para liderarem a busca por uma solução para o processo de abertura comercial global.

As negociações estão paradas desde julho, por causa de discordâncias entre Washington e Nova Délhi a respeito de salvaguardas para produtores agrícolas contra surtos de importação. A cúpula do G20 em novembro pediu a retomada do processo até o final de 2008, o que não ocorreu.

FINANCIAMENTO COMERCIAL

Há também uma boa chance de que os líderes definam uma oferta de apoio financeiro para azeitar as engrenagens do comércio global. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, quer uma expansão de 100 bilhões de dólares nas finanças comerciais para estimular exportações.

A posição do G20:

O Banco Mundial prometeu 50 bilhões de dólares para financiar o comércio. O Japão disse que irá prometer 22 bilhões de dólares.

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