A crise financeira global provocou uma fuga de investidores brasileiros dos chamados fundos hedge, os mais arriscados do mercado. Do início do ano até agora, a captação líquida dos fundos multimercados com renda variável (ações) e alavancagem - categoria onde está incluída a maioria dos hedge - está negativa em R$ 17,8 bilhões.

Na indústria inteira, o resultado, também negativo, chega a R$ 20,5 bilhões. Ou seja, comparativamente, os produtos de maior risco estão perdendo mais dinheiro que os outros. Os dados são da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) e referem-se à posição de quinta-feira passada, data mais recente disponível.

A saída em massa não poupou nem mesmo fundos de gestoras que pertencem a "estrelas" da área, como o ex-diretor do Banco Central (BC) Luiz Fernando Figueiredo, da Mauá Investimentos, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, da Quest Investimentos, e o também ex-diretor do BC Ilan Goldfajn, da Ciano Investimentos.

O Mauá Fundo de Investimento Multimercado, por exemplo, tinha patrimônio de R$ 1,7 bilhão no fim do ano passado. Na terça-feira, segundo dados do site Fortuna, eram R$ 191,7 milhões, queda de quase 90%. No mesmo período, o Quest 30 FI Multimercado saiu de um patrimônio de R$ 1,8 bilhão para R$ 268,9 milhões, recuo de 85%. O Ciano 60 Hedge FI Multimercado passou de R$ 364,1 milhões para R$ 208 milhões, perda de 43%.

No acumulado de 2008, a rentabilidade do Mauá está negativa em 3,49%, a do Quest, em 4,23% negativos, e a do Ciano, em 6,47% positivos. Isso significa que a perda de patrimônio dos três reflete fundamentalmente a fuga dos investidores.

Criados, em sua maioria, a partir de 2003, os fundos hedge brasileiros não haviam enfrentado um cenário tão adverso como o atual. A alta da bolsa entre 2003 e 2007, a queda praticamente ininterrupta do dólar no período e a tendência de baixa para o juros básico de 2005 até o início deste ano criaram um ambiente em que os ganhos eram praticamente certos.

Hoje, a realidade é outra. "Tivemos de nos adaptar ao ambiente de volatilidade", reconhece Walter Maciel, diretor da Quest. Segundo ele, a gestora promoveu mudanças a partir de agosto. O nível de exposição ao risco diminuiu, o cenário macroeconômico foi ajustado para o curto prazo e novas ferramentas para impedir quedas excessivas (stop loss, no jargão de mercado) foram adotadas.

"Os resultados já apareceram. Em setembro, nossos fundos bateram o CDI (taxa de juro de referência no Brasil)", diz Maciel. Ele não esconde que ficou "extremamente surpreso" com os saques dos investidores, mas está otimista com as perspectivas de médio e longo prazos. "É um movimento cíclico, que vai se reverter quando o juro voltar a cair."

Goldfajn avalia que esse tipo de situação "faz parte da vida de qualquer fundo arriscado". "Na crise, muita gente preferiu se resguardar", diz. "O brasileiro ainda é preso ao curto prazo." Para ele, o momento difícil pode representar boa oportunidade de ganho no longo prazo, uma vez que os preços estão baixos. Procurada, a Mauá Investimentos não quis se pronunciar.

O professor Ricardo Almeida, do Ibmec São Paulo, observa que a maioria dos fundos hedge tem cláusulas que obrigam o investidor a fazer aportes em caso de perdas expressivas. "Quando se aplica em título público ou ação, o máximo que acontece é perder tudo", diz. Nos fundos hedge, não. Existe a alavancagem, que é definida por ele como "a possibilidade de as perdas superarem o patrimônio". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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