Os frigoríficos brasileiros vão receber treinamento para evitar maus-tratos aos animais de corte. Como se tornam, cada vez mais, uma exigência dos importadores de carne, os programas de abate humanitário - realizado de forma a minimizar o sofrimento dos animais - devem ganhar espaço entre frigoríficos de diversos portes.

Um convênio assinado entre o Ministério da Agricultura, entidades do setor de carnes e a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA) já começou a treinar fiscais para inspecionar e treinar produtores de carne bovina, suína e de frangos no País. Em Santa Catarina, grande produtor de frangos e suínos, 200 frigoríficos farão parte do programa, que será estendido ao Paraná e São Paulo.

"A questão do abate humanitário vem ganhando espaço, e queremos antecipar a demanda dos consumidores mais exigentes. Isso pode ser a chave para a competitividade no futuro", diz Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs, entidade que representa os produtores de carne suína. A idéia é que o setor produtivo se antecipe a futuras barreiras não-tarifárias ao produto brasileiro.

Entre os exportadores de carne bovina, as questões de bem-estar animal já vêm sendo observadas. Pressionados por consumidores e entidades de defesa dos animais, as cadeias de fast food e supermercados europeus começaram a exigir o selo de "bem-estar animal" na carne que compram do Brasil. Isso fez com que grandes grupos, como Marfrig, Bertin, Seara e Perdigão, estruturassem áreas inteiras só para cuidar do assunto.

No grupo Marfrig, que exporta 50 % da produção, 20 profissionais se dedicam ao tema. "Cada uma de nossas unidades tem um técnico treinado em bem-estar animal, com o objetivo de reduzir o stress e sofrimento dos animais", diz Bassem Akl Akl, diretor-técnico do Marfrig.

A rede Tesco, do Reino Unido, só compra carne com essa garantia e envia esporadicamente auditores para verificar as condições de produção e abate no Brasil. Akl explica que nas auditorias de bem-estar são verificados itens como o uso de choque elétrico para conduzir o gado, número de quedas e lesões, condições de transporte e eficiência do abate - se o animal é morto na primeira tentativa.

A empresa de alimentos Braslo, principal fornecedora de produtos de carne para as redes McDonalds e Outback, passou a exigir esse compromisso dos fornecedores em 1999, e ajudou a propagar o movimento no País. "O bem-estar animal veio na esteira de outras exigências como segurança alimentar, rastreabilidade e boas práticas ambientais", diz Roberto Ruban, diretor-geral da Braslo. "Hoje virou uma questão comercial", diz.

Além de evitar o sofrimento dos animais, o movimento pode reduzir perdas. Ao sofrer maus-tratos no processo de abate, os animais liberam toxinas que alteram o PH (índice de acidez) da carne. Quanto mais alto o PH, pior a qualidade. "Quando o animal sofre lesões, como hematomas e fraturas, a carne fica imprópria para consumo, o que traz prejuízos para o produtor", diz Charlí Ludtke, coordenadora da WSPA.

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