No mês passado, 22 engenheiros, empreiteiros e incorporadores ligados ao Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon) percorreram as principais cidades da África do Sul para conhecer os novos estádios e outros empreendimentos públicos e privados ligados à Copa do Mundo. "Nós somos eles amanhã", disse Salvador Benevides, responsável sindical por relações internacionais.

No mês passado, 22 engenheiros, empreiteiros e incorporadores ligados ao Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon) percorreram as principais cidades da África do Sul para conhecer os novos estádios e outros empreendimentos públicos e privados ligados à Copa do Mundo. "Nós somos eles amanhã", disse Salvador Benevides, responsável sindical por relações internacionais. "Certamente teremos problemas parecidos de infraestrutura, atraso nas obras, pressão de custos, greves". Mas, em uma semana no país, a missão técnica do Sinduscon conheceu mais que estádios bonitos, boas estradas, aeroportos modernos, portos eficientes e ótimas universidades: visitou favelas e bairros construídos por um programa de moradia popular do governo, ouviu palestras sobre o Bolsa Família local e aprendeu sobre o amplo programa de inclusão racial do governo - Black Economic Empowerment (BEE) - que está criando uma nova classe média no país. Como o Brasil e outras economias emergentes, a África do Sul conjuga aspectos de país desenvolvido com um passivo de pobreza e enormes desafios sociais, com riqueza e miséria convivendo lado a lado. Segundo o recente estudo da ONU intitulado O Estado das Cidades do Mundo 2010/2011: Unindo o Urbano Dividido, estão na África do Sul as três cidades mais desiguais do mundo: Joanesburgo, Buffalo City e Ekurhuleni. Esse passivo de desigualdade e injustiça social foi acumulado em séculos de colonialismo e sobretudo nos 40 anos de apartheid, quando toda a riqueza do pais estava nas mãos de 10% da população, a minoria branca. A maioria negra não podia ter propriedades, só podia trabalhar no campo ou em funções inferiores no serviço publico ou nas empresas privadas e era obrigada a morar em áreas segregadas, em geral as favelas da periferia conhecidas como townships. Bolsa família. Uma série de ações afirmativas oficiais tenta desde 1994 acelerar o resgate social da maioria negra. O equivalente ao Bolsa Família é o chamado social grant, do qual dependem 12 milhões de sulafricanos, a maior parte jovens e crianças. O programa distribui US$ 141 por mês para os idosos e US$ 30 para os jovens de até 18 anos. No capítulo habitacional há um déficit de 2,2 milhões de moradias, mas o governo vem construindo e doando casas de 40 m2, ao custo unitário de US$ 6 mil, a famílias com renda mensal inferior a US$ 800. O programa de maior impacto é o BEE, destinado a inserir a maioria negra na economia capitalista. Bastante polêmico quando foi criado - seus detratores diziam que espantaria investidores e desestimularia o empreendedorismo - hoje é parte da vida cotidiana do país. Para vender para o governo ou participar de concorrências publicas, as empresas tem que ter o certificado de adequação ao BEE. Para isso, têm que cumprir sete critérios, entre eles cotas de negros na média e alta gestão, fornecer cursos de formação para gerentes e executivos negros e comprar produtos ou serviços apenas de outras empresas igualmente certificadas com as normas do BEE. As grandes corporações têm que ceder em média 25% do seu controle a acionistas negros. As empresas 100% subsidiárias de empresas estrangeiras estão isentas da obrigação da cota no controle acionário. "O BEE foi importante para normalização da África do Sul depois do apartheid pois desracializou a classe capitalista", disse à revistas The Economist Leslie Maasdorp, ex-conselheiro da filial sul-africana do banco Goldman Sachs. O objetivo declarado do programa BEE é criar uma classe média negra proporcional à presença de negros no conjunto da população, ao redor de 80%. O objetivo talvez esteja distante, mas houve progressos consideráveis. Poder de compra. Havia em 2008 três milhões de negros sul africanos considerados de classe média, ganhando em média US$ 1 mil por mês, segundo estudo do Instituto Unilever de Marketing Estratégico, da Universidade da Cidade do Cabo. Entre 2007 e 2008, o poder aquisitivo desse segmento passou de US$ 25 bilhões a quase US$ 35 bilhões, um aumento de quase 40%. O estudo afirma que a taxa de crescimento da classe média negra, que chegou a 30% de 2006 para 2007, decresceu nos últimos anos na medida em que seu número total vai se alargando. Apesar de crescer menos rapidamente agora, seu poder de compra está aumentando, o que sugere que a classe media negra está também ficando mais afluente, disse Rudo Maponga, pesquisador do Instituto. Detratores do BEE alegam que boa parte do crescimento da classe média negra é devido ao crescente número de negros que assumem empregos e cargos no serviço público, setor no qual seria politicamente mais fácil para eles conseguir boas vagas. Na verdade, como as empresas encontram dificuldades achar negros com boa qualificação profissional para preencher suas cotas raciais, vão recrutá-los onde se encontram, no serviço público.

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