França e Alemanha deram ontem os primeiros passos concretos em direção à maior regulação do mercado financeiro na Europa. Em Berlim, autoridades financeiras e monetárias dos dois países anunciaram a criação de um grupo de trabalho para regular as vendas a descoberto - as short sell -, uma operação que teria agravado a crise do mercado financeiro internacional.

Em Paris, o Medef, o maior sindicado patronal francês anunciou que estuda medidas para limitar o valor das indenizações milionárias pagas a executivos de empresas.

O acordo franco-alemão foi anunciado à noite, na Alemanha. Reunidos, ministros da Economia, Christine Lagarde e Peer Steinbrück, presidentes dos bancos centrais e "supervisores" dos mercados de ações acertaram a criação de um grupo de trabalho que resultará na proibição de parte das vendas a descoberto. A operação permite que um investidor venda a determinado prazo um título que ainda não possui, mas que pretende comprar em um intervalo de tempo inferior ao da venda planejada. Os operadores ganham - e perdem - dinheiro especulando em torno do valor futuro das ações.

O grupo de trabalho é a primeira medida da "cooperação reforçada" entre os dois países, críticos da falta de regulação dos mercados financeiro e de capital nos EUA e no Reino Unido. "Nós tomamos excelentes resoluções para que ajamos com mais rapidez e com mais eficiência na prevenção e no manejo de crises", disse a Christine Lagarde.

Enquanto autoridades políticas negociavam em Berlim as primeiras medidas de regulação, em Paris diretores do Movimento das Empresas da França (Medef) anunciaram a intenção de auto-regular as multas pagas aos executivos demitidos em cenários de crise econômica, os chamados "guarda-chuvas dourados". As indenizações causaram controvérsia nos Estados Unidos por ocorrerem em meio a anúncios de bancarrota, de prejuízos e demissões em massa.

Richard Fuld Jr., diretor-presidente do banco de investimento Lehman Brothers, deve receber US$ 40 milhões como multa por sua demissão, depois de ter recebido um bônus de US$ 13 milhões em março. Martin Sullivan, ex-diretor-presidente da AIG, companhia de seguros ameaçada pela crise, deixou a empresa com US$ 68 milhões no bolso. O recordista é Stanley ONeil, ex-diretor-presidente do Merrill Lynch, que recebeu US$ 160 milhões ao ser demitido.

Na França, casos semelhantes ocorreram em gigantes como ELF - hoje absorvida pela petrolífera Total - e Carrefour. O caso mais emblemático foi a demissão de Nöel Forgeard, co-presidente do grupo aeronáutico EADS - holding que inclui a AirBus. O engenheiro deixou a companhia em 2005 com ¿ 8,5 milhões em indenização, mesmo sendo indiciado pela Justiça por fraudes administrativas.

Laurence Parisot, a presidente do Medef, defendeu o fim do benefício. "O Comitê de Ética do Medef vai recomendar o fim dos guarda-chuvas dourados", anunciou à rádio France Info. A executiva pediu uma discussão internacional sobre o tema. "Não podemos determinar o teto das indenizações, mas não podemos permitir que executivos recebam indenizações milionárias diante de performances evidentemente fracassadas."

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