O Palácio do Eliseu lançou ontem, em Paris, mais uma tentativa de reformar o sistema de previdência pública francesa. O debate mais polêmico se dá em torno do tempo de contribuição, hoje de 40,5 anos, e da idade mínima de aposentadoria, de 60 anos, a mais baixa da Europa.

O Palácio do Eliseu lançou ontem, em Paris, mais uma tentativa de reformar o sistema de previdência pública francesa. O debate mais polêmico se dá em torno do tempo de contribuição, hoje de 40,5 anos, e da idade mínima de aposentadoria, de 60 anos, a mais baixa da Europa. A proposta defendida pelo presidente Nicolas Sarkozy, que já enfrenta a resistência de sindicatos e da opinião pública, é a sexta iniciativa feita por sucessivos governos franceses desde 1993. Até aqui, nenhuma resultou nas transformações julgadas por especialistas como essenciais. Desde 1980, com o aumento da expectativa de vida, a redução da taxa de natalidade e a degradação do mercado de trabalho compõem um coquetel explosivo nas contas da previdência na França. O diagnóstico não deixa dúvidas: o déficit da previdência francesa chegará a 10% em 2010, porcentual que tende a dobrar até 2020 se nada for alterado, empurrando o déficit a ¿ 25 bilhões. A discussão sobre a reforma foi aberta pelo ministro do Trabalho, Eric Woerth, em uma reunião com as cinco maiores centrais sindicais e com três organizações patronais. Ainda não há uma proposta na mesa discussões, mas entre as ideias cogitadas estão o aumento da idade de aposentadoria e o alongamento do tempo de contribuição. O aumento das cotizações está, em princípio, afastado. "Esse é um tema sobre o qual o governo não está aberto a discutir", afirmou Woerth. "A chave da reforma, não é o aumento geral dos impostos, porque ele representaria a diminuição geral do poder aquisitivo." Apesar da aparência de diálogo, o governo sabe que não poderá contar com os sindicatos para reformar o sistema previdenciário. Além da indefinição sobre as medidas, o governo propõe um calendário de debates apertado, o que irritou os principais sindicatos da França. Até junho, uma proposta contendo as alternativas deve ser apresentada pelo governo, que então trabalhará em um texto final. "Está fora de questão que sejamos colocados frente a uma proposta fechada. O governo terá de levar em conta a opinião pública", afirmou Bernard Thibault, secretário-geral Confederação Geral do Trabalho (CGT), o maior sindicato do país. A opinião pública também revela antipatia pelas alternativas. Na França, dos 63 milhões de habitantes, 15 milhões são aposentados e recebem salários que variam entre ¿ 825, valor médio pago a mulheres, e ¿ 1,4 mil, remuneração média dos homens. Segundo uma pesquisa revelada ontem pelo Instituto Harris Interactive, 80% dos franceses são favoráveis à reforma, mas apenas 39% apoiam o aumento do tempo de trabalho necessário para requerer a aposentadoria. "Para que possamos elevar a idade de aposentadoria, é preciso que os trabalhadores seniores continuem a trabalhar além dos 60 anos, o que implica um bom mercado de trabalho. Mas esse não é o caso atualmente", explica Gérard Cornilleau, pesquisador do Centro de Pesquisa Econômica (OFCE), de Paris. Antigo paradigma da esquerda francesa, a aposentadoria aos 60 anos foi abandonada em todos os demais países da União Europeia. A última foi na Espanha, em janeiro, onde a idade de aposentadoria passou de 65 para 67 anos.
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