Militante do combate à inflação, até por dever de ofício, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, fez, em Goiânia, para uma platéia de jovens empresários e políticos, um discurso em que mais parecia um ministro desenvolvimentista. Em tempos de crise econômica, Meirelles surpreendeu ao falar da preocupação com a manutenção do mercado de trabalho, a necessidade de reformas para melhorar o ambiente de negócios e tratou o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) como um programa de investimentos que o governo deve tocar com alta prioridade.

Chegou a falar da reforma tributária, redução da burocracia do Estado e investimentos em educação como desafios para o País.

O discurso em Goiânia, às 2130h de anteontem, soou como uma espécie de continuidade aprofundada do que ele dissera horas antes na Comissão de Assuntos Econômicos da Câmara. Para os deputados, Meirelles já havia indicado que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai levar em conta o panorama de crise e recessão econômica mundial na hora de decidir sobre os juros do País.

Esse espírito de compreensão - não para se tornar leniente com a inflação, mas para evitar que o Brasil precise elevar a Selic, hoje em 13,75%, encarecendo o custo do dinheiro para as empresas - foi reforçado com a idéia de que é preciso manter o mercado interno para segurar a desaceleração da economia.

Em vez da preocupação com o descompasso entre o ritmo da demanda e oferta - principal risco para a inflação apontado pelo Copom -, o presidente do BC avaliou que o consumo forte no mercado doméstico é uma vantagem. Ele citou que as vendas no varejo cresceram 10,3% nos últimos 12 meses até setembro. "É uma vantagem em relação aos países asiáticos que têm economia muito baseada na exportação para os Estados Unidos e a Europa", afirmou. Apesar da expectativa de desaceleração do ritmo de crescimento econômico em 2009, Meirelles disse que em 2010 a economia vai se recuperar e, então, "o mercado já está aí".

Fazendo referência ao ideograma chinês para crise, que combina os significados de perigo e oportunidade, Meirelles disse que é nesses momentos que a economia se ajusta. E surgem as grandes oportunidades, ao contrário do que acontece nos momentos de "euforia".

Segundo Meirelles, agora é a hora ideal para se construir um negócio ou para se lançar as bases de uma expansão com "pé no chão". "As decisões tomadas num momento de euforia tendem a ser decisões muitas vezes equivocadas. Esse é o momento em que as empresas cortam custos, racionalizam, investem, ganham produtividade", aconselhou o presidente do BC. Ele ressaltou que as grandes organizações e os grandes vencedores "plantam as suas raízes e começam a sua ascensão" em momentos de desaceleração econômica.

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