Desde que começou um curso profissionalizante, em 2001, no Senai, o estudante Thiago Silva Besse, 25 anos, experimenta uma trajetória profissional ascendente. Em dez anos no mercado de trabalho, ele passou, ainda, por um curso técnico em eletrônica e, atualmente, cursa o quarto ano de Engenharia em uma universidade particular de São Paulo. O crescimento profissional, diz, sempre esteve atrelado à formação acadêmica. Mais que acumular diplomas, Besse viu sua renda quintuplicar em dez anos de estudo.
O caso de Thiago Besse não é exceção nas mais de 2,3 mil instituições de ensino superior no País. É cada vez mais comum ver pessoas que já estão inseridas no mercado de trabalho buscarem cursos superiores - principalmente, de curta duração - para novas perspectivas profissionais. Dos 70 colegas de classe de Besse, 90%, diz ele, iniciaram com um curso técnico na área de engenharia e ingressaram na universidade visando crescimento profissional.
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A procura de Besse e seus colegas tem fundamento. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado nesta quarta-feira, mostrou que a formalização é maior entre os trabalhadores com maior escolaridade.
Entre 2001 e 2009, em termos absolutos, a formalização do mercado de trabalho aumentou em 101,1% entre os trabalhadores com 15 ou mais anos de estudo, totalizando 65,6 milhões de pessoas.
Para os trabalhadores com 11 até 14 anos de estudo, o crescimento absoluto foi de 90,9%, enquanto, para aqueles com um a três anos de estudo, houve queda de 11,7% na formalização.
“Isso revela que, em grande medida, as vagas no setor formal que têm sido criadas exigem ao menos o ensino médio completo”, disse o Ipea.
De acordo com o trabalho do Ipea, dentre as explicações para a formalização do mercado de trabalho a partir de 2001 destacam-se a expansão econômica e a dinâmica do mercado de trabalho e melhorias institucionais, “como maior fiscalização por parte do Ministério do Trabalho e Emprego e da Justiça do Trabalho, regularização das empresas, ação sindical e reestruturação do Estado”.
Foco no mercado
A formalização do mercado de trabalho tem impulsionado a procura por cursos superiores no País. Dados do Ministério da Educação mostram que, em sete anos, o número de matriculas na educação superior saltou de 3,5 milhões para 5,9 milhões, em 2.314 instituições de educação superior. Atualmente, o País forma cerca de um milhão de alunos por ano.
O crescimento mais expressivo das matriculas é visto nos cursos tecnológicos - com duração média de dois anos, com foco, principalmente, para o mercado de trabalho. Entre 2008 e 2009 (dados mais recentes divulgados pelo ministério), os cursos de gradução tradicionais cresceram 13%, enquanto os cursos tecnológicos tiveram alta duas vezes maior, 26%. Em 2009, o País contava com 680,6 mil estudantes em cursos tecnológicos. Há dez anos, o número era de 69,7 mil.
Entre as opções de graduação, os cursos de administração, direito, pedagogia e engenharia são os mais procurados pelos estudantes, com 1,1 milhão, 651 mil, 573 mil e 420 mil matriculas, respectivamente.
Apesar do crescimento dos números, não há unanimidade sobre a relação da formalização do emprego e a demanda no ensino superior. “Basta ver que o índice do PIB brasileiro (7% em 2010) é expressivamente superior ao índice de crescimento na procura por vagas na universidade”, disse o vice-reitor da Universidade Bandeirantes de São Paulo (Uniban), Ellis Brown.
Para ele, a demanda por cursos superiores cresce a taxas “quase vegetativas” e a tendência dos últimos anos é de estagnação. “Não fosse o ProUni e o Fies e este índice seria negativo.”
Segundo Brown, isso é fruto do “modelo econômico do Brasil que é extrativista e demanda empregos técnicos e de baixa qualificação”, completou.
Formalização entre trabalhadores com mais de 15 anos de estudo saltou 101% em oito anos
Ganhos e carências
É amplamente divulgado que o aumento de escolaridade dos trabalhadores gera ganhos reais para a economia. Estudos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) apontam que o aumento de um ano na escolaridade média da população economicamente ativa (PEA) pode gerar um aumento de 0,35% anual sobre a renda per capita do brasileiro.
Se são conhecidos os benefícios da escolaridade no desempenho do trabalhador, também sobram exemplos das carências da educação no Brasil.
O Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp fez um levantamento, com base na amostra de países que compõem o Índice de Competitividade da Fiesp (IC-Fiesp), que apontou que o Brasil é um dos países com um dos menores níveis educacionais (média de 5,5 anos de estudos por trabalhador). O País é superado, apenas, por Índia (4,02 anos) e Turquia (4,83 anos).
Entre os anos de 1999 e 2008, o Brasil investiu por estudante, em média US$ 978. “O nível educacional é inferior aos alcançados por países como a Colômbia, o Chile e a Argentina”, disse a Fiesp.
A entidade, no entanto, pontua que há uma ineficiência do gasto público em educação no País. “Entre 92 países, o Brasil ocupou a 53ª posição, entre os países com Maiores Gastos Públicos em Educação (por estudante), média 1999 a 2008. Contudo, a posição brasileira atingiu a classificação 70 entre os países com Maiores anos de Escolaridade.”
A Fiesp concluiu que a ineficiência do gasto público em educação gerou, entre 1999 e 2008, uma perda de R$ 56,7 bilhões, o equivalente a 1,8% do PIB.
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