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O sinal de alerta que se acendeu no mercado após duas grandes empresas, Sadia e Aracruz, terem anunciado perdas com operação de proteção (hedge), por meio de derivativos alavancados, não foi infundado. Fontes ligadas ao setor financeiro disseram à Agência Estado que essas perdas estão relacionadas a um tipo de produto oferecido por alguns bancos para concessão de crédito com base no CDI, mas com uma cláusula relacionada ao câmbio que deixaria a empresa vendida em dólar caso a cotação ultrapassasse determinado preço.

Entre os bancos citados pelas fontes estariam o Itaú e o Citibank. Procuradas pela Agência Estado, as duas instituições não quiseram comentar o assunto.

O vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Braskem, Carlos Fadigas, disse que a empresa foi procurada pelo mercado financeiro com a oferta de aderir a derivativos, mas decidiu não se aventurar no mercado especulativo. Fadigas afirmou que a Braskem não realiza operações de derivativos.

Por ter grande parte dos custos e da receita atrelada à moeda norte-americana, a Braskem opta por manter 70% de sua dívida em dólar. Com isso, garante um hedge natural a partir de suas exportações, ao mesmo tempo em que limita sua exposição cambial aos indicadores de endividamento.

Outras empresas, no entanto, teriam aderido ao produto, segundo uma fonte. Outra fonte, sócio de uma corretora em São Paulo, chegou a dizer que não foram poucas: "Posso afirmar que 90% dos grandes exportadores fizeram essa operação."

Uma das razões de as empresas aderirem ao produto ofertado pelos bancos era a possibilidade de ganhos em relação às operações com CDI - a taxa de juro interbancário. Um exemplo de operação que teria sido montada por um dos bancos financiava a empresa a uma taxa de 100% do CDI, abaixo, portanto, do cobrado no mercado, que chegou a 110% do CDI, no pico. A outra vantagem era a perspectiva de que o dólar não subiria. Poucos eram os analistas que consideravam a cotação do dólar no nível atual.

A cláusula de câmbio desses instrumentos financeiros estaria atrelada a operações de derivativos conhecidas como "opções com barreira", no jargão do mercado "one touch barrier". Neste tipo de operação, se o dólar tocar uma única vez, para cima ou para baixo, a cotação limite estabelecida entre as partes, a cláusula é acionada. De acordo com as fontes, dependendo do contrato, o teto era de R$ 1,70 ou R$ 1,80.

No caso dos contratos com teto de R$ 1,80, um profissional explicou que, ao entrar na operação, a empresa estaria vendida em dólar a R$ 1,60, mais juros. No intervalo de R$ 1,60 a R$ 1,80 não acontecia nada. Se o dólar caísse abaixo de R$ 1,60, a empresa ganharia a variação a favor além dos juros. Por outro lado, se o dólar batesse R$ 1,80, ela ficaria vendida a R$ 1,60, ou seja, teria que comprar dólar para cobrir a diferença. "Como o dólar subiu acima do esperado, chegando a bater R$ 1,96 na semana passada, ficou caro para as empresas liquidarem esses derivativos", disse uma fonte.

Com o mercado apreensivo durante todo o dia em razão da dificuldade em saber quais empresas estariam expostas a esse tipo de produto financeiro, várias companhias divulgaram comunicado ou concederam entrevistas negando ter aplicado em derivativos especulativos. Na lista, estão gigantes como Petrobras e Vale e, principalmente, as companhias dos setores de alimentos e papel e celulose, concorrentes de Sadia e Aracruz, que admitiram as perdas.

Mesmo assim, o mercado não considerou suficiente. Fonte disse que a Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec) teria pedido à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que exija de todas companhias abertas divulgação sobre sua exposição ao câmbio.

"Os analistas estão em polvorosa e várias empresas estão se pronunciando espontaneamente, mas o ideal seria que ocorresse esta obrigatoriedade por parte da CVM", afirmou. Acionistas minoritários e analistas têm encontrado dificuldade em identificar nos balanços operações com derivativos semelhantes à realizada pela Sadia, que registrou perda de R$ 760 milhões.

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