A história de Nelson Castro, das balas IceKiss, que transformou uma padaria em indústria de guloseimas, foi à falência e ressurgiu

Em 1968, aos 25 anos, Nelson do Nascimento Castro, encerrou a carreira como funcionário de carteira assinada em lojas de varejo em Lins, interior de São Paulo, para se arriscar no empreendedorismo. Comprou uma padaria. Não qualquer uma. Mas aquela onde ficavam os doces que lhe fizeram as alegrias de menino, não muito longe da casa dos pais. “Não era o negócio que eu queria, mas o que eu então podia comprar”, diz Castro. A padaria chamava-se Bengala, numa referência direta ao seu principal produto. Ocorre que Castro não tinha como produzir, já que o local ficara fechado por dez anos e o forno havia sido desmontado. Mas foi na padaria que não assava pão que Castro descobriu um talento nato para fazer os negócios crescerem. Por três décadas, viveu uma ascensão continua.

Arte iG
"No Brasil, todo mundo contar histórias de negócios de sucesso. Ninguém fala dos fracassos", diz Nelson Castro, da IceKiss

Cerca de um ano depois, transformou a Bengala numa pequena indústria de pães, pães de forma e mini pães. Batizou o novo negócio de Indústria de Produtos Alimentícios Cory. Em 1974, adquiriu a Balas Apache, em Ribeirão Preto, e ingressou no mercado de guloseimas. Seu passo decisivo foi unir todos os negócios em 1977, em uma única planta industrial de Ribeirão Preto sob o guarda-chuva da Cory. Ao longo dos anos 80 e 90, ganhou posições no mercado estadual, e depois nacional, com produtos como as balas IceKiss (1985), os biscoitos recheados (1989) e os ovos de páscoa (1995) da marca Hipopó.

Apesar do histórico de sucessos, em 2003, a Cory pediu concordata. Era uma tentativa de Castro de ganhar tempo, organizar as finanças e renegociar com os credores. Contratou uma assessoria financeira nos Estados Unidos para elaborar um plano de reenegociação das dívidas. Nas festas de final de ano, no entanto, o executivo americano que coordenava o processo sofreu um acidente esquiando. Antes que o substituto tomasse pé dos problemas da empresa, a Cory teve um título protestado. Dez dias depois, em 31 de janeiro de 2004, a falência da empresa foi decretada.

Os erros ensinam

Sérgio Diniz, consultor do Sebrae em São Paulo há 12 anos, perdeu a conta de quantas empresas ajudou a criar – e quantas delas fecharam as portas. Mas tirou uma grande lição dessa convivência com os sucessos e os fracassos dos empreendedores com os quais conviveu: “Assim como na vida, no mundo dos negócios você precisa aprender com os próprios erros”, diz Diniz. “O fim de um negócio pode ser o início de outro bem sucedido.”

Foi nessa máxima que Castro acreditou. “Recorremos da decisão. Infelizmente, a Justiça é lenta”, diz Castro. “Ficamos quatro meses fechados até ganharmos na Justiça o direito de reabrir.” Segundo o empresário, como tinha construído relacionamentos com os colaboradores, conseguiu recuperar a empresa. “Não tínhamos o crédito dos bancos, mas 40 anos sem um cheque devolvido e um relacionamento de confiança trouxeram de volta fornecedores e clientes”, diz Castro. “Com o tempo, até funcionários que haviam conseguido emprego, retornaram.”

Castro transformou em livro aquela fase ruim que qualquer empresário no seu lugar gostaria de esquecer se tivesse vivido. Lançou em 2006 o livro “O Voo do Hipopótamo”, com detalhes sobre a derrocada e a ascensão, e concedeu várias palestras sobre o tema. “Segui o conselho de um amigo”, diz Castro. “Ele me chamou a atenção para o fato de no Brasil todo mundo contar histórias de negócios de sucesso. Ninguém fala dos fracassos.” Mas a história teve final feliz: a Cory hoje é uma empresa lucrativa.

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