"Para ter a vida de rico você precisa empreender"

Por Bárbara Ladeia - iG São Paulo

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George Milford Haven, primo da rainha da Inglaterra, chegou ao primeiro milhão de libras aos 25 anos e traz ao Brasil site comparador de serviços financeiros

George Milford Haven, de 52 anos, quarto Marquês de Milford Haven, no País de Gales, e primo da Rainha Elizabeth, do Reino Unido. Com tanto título e parentesco, não é fácil imaginar que este nobre cresceu por conta própria, conquistou o primeiro milhão aos 25 anos com um negócio imobiliário, perdeu tudo, voltou a empreender e abraçou o inovador mercado de startups.

Haven lança no Brasil o MoneyGuru, site que promete ser uma espécie de hub, comparador de preços de serviços financeiros. A meta é ultrapassar o primeiro milhão de usuários já nos 12 meses iniciais de operação e o aporte veio do próprio bolso de Haven. Ele estima aportar na empresa, cuja sede está localizada em Moema, bairro da zona sul de São Paulo (SP) cerca de 13 milhões de libras – dos quais 3 milhões já foram investidos.

Lienio Medeiros/Divulgação
George Milford Haven, primo da rainha Elizabeth II

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Com o característico bom humor britânico, Haven contou ao iG como começou a empreender, como chegou ao primeiro milhão e o como vê o mercado nacional. Vizinho do excêntrico - e também britânico - Richard Branson, diretor-presidente da Virgin, ele acredita que todo empreendedor erra muito até traçar a rota de sucesso

iG: Como você começou a empreender?

George Milford Haven: Eu sempre fui um empreendedor serial. Quando era mais jovem, eu trabalhei em um banco e percebi rapidamente que para ficar rico você precisa trabalhar em um negócio que cresça muito ou você monta seu próprio negócio. A qualidade de vida melhora muito quando você é um empresário. Claro que há muito estresse envolvido, mas depois disso, você não tem alguém te ligando na manhã da segunda-feira nem fica limitado a trabalhar até um certo horário. A liberdade que você tem ao ser um empresário é fantástica. Então resolvi tocar meus próprios negócios, uns deram certo, outros não. Provavelmente eu só comecei a funcionar mesmo depois dos 30 anos.

iG: E sobre as empresas que não deram certo?

George Milford Haven: Puxa, a lista é longa. Se você falar com qualquer empresário de sucesso vai ver diversos fracassos para entender por onde o negócio dá certo e por onde ele não funciona. É muito muito raro começar um negócio, perceber que ele é o melhor negócio da sua vida e não falhar algumas vezes. Já tive empresas imobiliárias que não funcionaram muito bem, empresas de aviação que não andaram direito, já tive empresa de limpeza que não caminhou como esperado. A lista segue. Mas já tive também boas vitórias, também na internet. Fiz meu primeiro milhão quando tinha 25 anos, adquiri uma opção de compra de um terreno ao lado de uma cidade. Eu disse: Olha queria comprar esses seus quatro acres. Ele me respondeu que custaria 40 mil libras, então eu comprei uma opção não revogável por 4 mil libras. Ele assinou, eu peguei um financiamento e preparei o terreno. Assim que terminei, paguei suas 40 mil libras e vendi o espaço por 1,2 milhão de libras.

iG: E até os 30 anos?

George Milford Haven: Eu achei que seria fácil, tive uma boa vida. Acabei com esse dinheiro em dois anos e levei um longo tempo para voltar. Percebi que estava fazendo a coisa errada quando o dinheiro acabou. Eu repentinamente percebi que os negócios não são tão fáceis assim. Espero que os mais jovens hoje não precisem passar pelo que eu passei.

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iG: O que você pensa do mercado de startups no Brasil?

George Milford Haven: No meu ponto de vista, estamos no momento certo do Brasil. Estou mandando dinheiro da Europa para o Brasil custando 40% menos que no ano passado. Do ponto de vista do investidor, se você for corajoso, este é o momento, porque o País está 40% mais barato. Se o real se valorizar mais 40% em três anos seria um sonho.

iG: Como você faria a comparação entre o Vale do Silício, o cenário de startups no Reino Unido e no Brasil?

George Milford Haven: As melhores ideias tendem a ser incubadas no Vale do Silício e correm pelo mundo. Curiosamente, os comparadores de preço do Reino Unido lideram o mundo todo. Lideram por que o mercado norte-americano é muito fragmentado. Você não tem a mesma operadora de cartão de crédito ou seguro de carro em Boston, você não terá o mesmo se viver no Texas. Cada estado não tem tanta gente, então você não consegue escala. Exceto por viagens, comparadores de preços não decolam nos Estados Unidos. Além dos Estados Unidos e do Reino Unido, temos a Europa e depois o Brasil.

Estou falando sobre a capacidade de adoção de mecanismos facilitadores, o Brasil certamente está em quarto lugar no mundo, mas pode rapidamente mudar essa posição. Temos muitas oportunidades e necessidades aqui, muita gente comprando o primeiro carro, usando cartões de crédito, contas bancárias, cartões pré-pagos ou seguros de carros. Há uma imensa classe emergente precisando de um facilitador como nós para pegá-los pela mão.

iG: Ter o sangue da família real britânica o ajudou em alguma coisa?

George Milford Haven: Eu sou primo da rainha, não parte da família real. Sou um parente deles e isso não fez muita diferença até hoje, especialmente aqui, porque eu não ando por aí com uma grande bandeira dizendo "sou britânico". E eu agradeço muito por esse anonimato, por sinal. No Reino Unido isso também já não faz muita diferença.

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George Milford Haven é primo da Rainha Elizabeth II, da coroa Britânica. Foto: Getty ImagesHaven é vizinho do excêntrico Richard Branson, mas prefere um estilo mais mais discreto de gestão. Foto: Getty ImagesMoney Guru, o novo investimento de Milford Haven. Foto: Repordução / Revista QuemuSwitch, também criado por Haven, foi vendido por R$ 210 milhões. Foto: ReproduçãoKelisto.es, último comparador de preços criado por Haven. Foto: Reprodução


iG: E o sangue empreendedor, você passou para seus filhos?

George Milford Haven: Para minha filha, acho que não, mas o menino eu acho que sim. Eu não tentei colocar isso neles. Tenho um amigo que tem filhos e os pressionou muito para seguirem para a melhor escola, para os melhores cursos, e tudo mais, e nenhum deles será empreendedor. Porque empreendedores tipicamente não são assim. Tem uma coisa muito interessante que o Richard Branson costuma dizer é que frequentemente, na vida, os alunos que tiravam C têm os alunos que tiravam A e B trabalhando para eles. Um aluno nível C tem dons diferentes, habilidades diferentes, enquanto os garotos que estudavam para um A ou B buscam posições em organizações, sabem as teorias, não pensam fora da caixa, não encaixam coisas diferentes. Empreendedores possuem uma cabeça muito aberta, é o que eu acho. O meu menino sempre me liga todas as noites, me faz todas as perguntas prováveis para alguém da sua idade que olha o negócio como um todo. Se ele fosse um bacharel em economia, estaria me perguntando sobre o retorno do investimento. Ele largou a faculdade e agora está fazendo um curso de piloto de helicóptero. Ele disse que queria tocar um negócio, mas tem 23 anos. Meu filho ainda não tem conhecimento suficiente. Falei que ele poderia largar a faculdade se quisesse, mas teria de fazer alguma coisa. Então quero que ele passe alguns meses como estagiário de piloto em alguns lugares para aprender como as coisas funcionam.

iG: E quem o ensinou a ser empresário?

George Milford Haven: Ninguém me ensinou e isso não se aprende. Poucas pessoas me inspiram de verdade. O que realmente me moveu foi que eu sempre circulei em um ambiente com pessoas muito ricas e eu aprendi muito cedo que para ter a vida de um rico você tem de empreender. Você não consegue as coisas que um rico tem com um salário.

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Lienio Medeiros/Divulgação
George Milford Haven, 484º na linha de sucessão do trono britânico

iG: Qual experiência você trás para o MoneyGuru?

George Milford Haven: Existem alguns sites de comparação no Reino Unido e todos eles são bem sucedidos. Recentemente iniciei o Kelisto.es, uma empresa que pode ser muito similar ao que o MoneyGuru vai ser em algum tempo. Está baseado em Madri, com 30 pessoas, e está possivelmente um ano na frente do que o MoneyGuru está hoje. Eles serão muito similares, só que investimos € 14 milhões lá, estamos aportando o dobro por aqui.

iG: Por que você se interessou pelo Brasil?

George Milford Haven: Nossa sede é aqui e escolhi o Brasil porque vendi um negócio similar alguns anos atrás. Sempre me interessou o crescimento que podemos ter quando você implanta um negócio novo em um ambiente. A internet no Brasil está explodindo, são 100 milhões de pessoas na internet, por banda larga ou pelo smartphone. Há um cenário muito difícil no Brasil, tudo é muito burocrático. Coisas que fazemos com relativa facilidade na Europa e nos Estados Unidos levam muito tempo para serem executadas no Brasil. Decidi começar uma empresa facilitadora, uma companhia que procura fazer a relação entre fornecedor e usuário mais simples. O cartão de crédito, por exemplo, tem uma série de bandeiras, taxas e versões diferentes, um monte de opções. O MoneyGuru vai ajudá-lo, como um guru de finanças, que vai ajudar a decidir.

iG: Os brasileiros estão prontos para utilizar esse produto?

George Milford Haven: Eu aposto alguns reais que o os brasileiros já estão prontos - e eu já apostei alguns milhares por aqui. Já existe alguns sites facilitadores como o Buscapé, o Decolar e o Dafiti, sites de comparação de preços. Se as pessoas estão fazendo esses tipos de comparação, me parece totalmente óbvio que outros serviços como as finanças também possam ser comparados, como cartões de crédito, planos de saúde, consórcio e financiamentos. Queremos ajudar as pessoas e conectá-las com os produtos adequados.


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