Procura dinheiro para sua startup? Veja dicas de quem atraiu investidores-anjo

Por Taís Laporta - iG São Paulo

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Empreendedores de sucesso contam como venderam seu peixe para captar recursos de investidores e fazer sua startup sair do papel. Conheça qualidades que os 'anjos' apreciam

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Alykhan Karim, fundador da startup Sonoma: 12 'anjos' apostaram na ideia

Apreciador de vinhos, o californiano Alykhan Karim desembarcou no Brasil com a ideia de comercializar a bebida pela internet oferecendo curadoria, inspirado em empresas americanas. Mas precisava de dinheiro para levantar a startup. Apresentou o projeto e, pelo boca a boca, conseguiu recursos de 12 investidores-anjo e de um fundo para abrir o Sonoma em 2012.

Os ‘anjos’ de Karim acompanham o negócio de perto e são mentores do empreendedor de 28 anos. Brasileiros, indianos e norte-americanos compõem o grupo: alguns conhecem tecnologia como a palma da mão, outros são peritos em comércio eletrônico ou tiveram negócios parecidos em outros países.

O negócio virtual passou a receber 100 mil visitantes mensais, interessados em saber como harmonizar vinhos, educar o paladar ou, quem sabe, levar para casa um rótulo refinado. “Selecionamos poucos produtos de uma lista de 300 fornecedores e vendemos lotes em consignação”, conta o empresário. Todo o retorno financeiro da empresa é convertido em investimentos em marketing e logística para reduzir o tempo de entrega dos produtos e fazer a startup crescer.

Inovação é a palavra predileta dos ‘anjos’ ao buscar projetos para injetar seu capital. Com patrimônio sólido e disposição para investir, eles só apostam em negócios nos quais acreditam ter potencial de retorno. Mais do que vender o peixe para um ‘anjo’, empreendedores devem passar segurança de que a ideia vai deslanchar e gerar crescimento exponencial.

“Eles querem ver propostas que já deram certo lá fora ou que não exista modelo parecido no Brasil”, sugere o fundador do Sonoma. Para ele, investidores estão de olho não apenas na ideia, mas nas pessoas que integram a empresa. O empreendedor também ganha pontos, na visão de Karim, se conseguir provar que há adesão ou pessoas interessadas no projeto.

Gustavo Caetano, fundador da Samba Tech, empresa líder na produção de vídeos online na América Latina, conquistou um ‘anjo’ para desenvolver jogos eletrônicos há oito anos, quando ainda era universitário. Um empresário de Santa Catarina ligado ao mercado imobiliário resolveu apostar na ideia do estudante e investiu US$ 100 mil para viabilizar a startup. O aporte permitiu a contratação de equipes e tecnologia. Hoje, a empresa é avaliada em RS 100 milhões.

A startup Juv, empresa que nasceu em 2012 com a proposta de revenda direta de acessórios e bijuterias por diversos canais, recebeu aporte inicial de dois ‘anjos’ – Kai Schoppen e Florian Otto. “No início, todo o capital veio deles”, conta Guilherme Chevarria, de 27 anos, diretor de operações e um dos três sócios da empresa.

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Guilherme Chevarria, de 27 anos: virou sócio da Juv, que começou com dois 'anjos'

Os investidores participam de reuniões semanais com os fundadores para compartilhar resultados e traçar planos futuros, segundo Chevarria. Ele acredita que, para atrair ‘anjos’ ao negócio, é preciso ser competitivo e não adianta copiar modelos de empresas bem sucedidas, só porque deram certo. “O importante é se diferenciar e mostrar que há uma evolução, porque o investidor quer ver resultado”.

Este ano, a Juv passou a receber aporte de sete grupos de investidores, quatro estrangeiros e três nacionais. Ainda em fase inicial, a startup atraiu ao menos mil revendedoras para comercializar os produtos por canais não convencionais, como redes sociais, smartphones, tablets e bazares.

O que os ‘anjos’ buscam

Ideias ligadas ao setor deTI (tecnologia da informação) interessam pelo menos 75% dos investidores-anjo, embora outras áreas também despertam forte interesse, mostrou esta semana uma pesquisa da Anjos do Brasil, entidade que fomenta encontros com os empreendedores, durante o 1º Congresso de Investimento-Anjo da organização.

Aplicativos para smartphones, por exemplo, ainda chamam a atenção de 56% dos consultados, enquanto 44% deles acreditam que saúde e biotecnologia são áreas promissoras. Comércio eletrônico (42%), educação (38%) e entretenimento (35%) vêm em seguida.

Definir o setor é menos complicado do que identificar uma ideia diferenciada. “Projetar o que é inovação é muito difícil quando o produto está em fase inicial e não tem mercado formado”, diz Robert Binder, coordenador de empreendedorismo, inovação e seed capital da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP).

Devido à dificuldade de mensurar o real potencial do negócio, ainda embrionário, o professor de empreendedorismo do Insper, Marcelo Nakagawa, acredita que os ‘anjos’ acabam apostando mais no potencial do empreendedor do que na proposta.

A cautela é grande porque o risco do investimento é altíssimo. Em países como Estados Unidos, onde o investimento-anjo é bem mais avançado que no Brasil, mais de 50% dos 'anjos' não obtêm o retorno esperado, segundo Cate Ambrose, presidente da Lavca (Latin American Private Equity & Venture Capital Association).

Mas como valorar um startup, se ela ainda não entrou no mercado? Quanto deve pedir o empreendedor? Caetano, fundador da Samba, conta que não fazia ideia do valor que deveria pedir quando fechou o negócio. “O chute deu certo”, diz. Para o professor Nakagawa, há situações em que o empreendedor tem expectativa de valor muito alta, e o investidor está mais preocupado em se proteger do risco do que apostar. Já Binder, da ABVCAP, acredita que é o ‘anjo’ quem define o aporte. “Sua empresa vale o quanto o investidor quiser pagar por ela”, afirma.

Como expor sua ideia

Os investidores pessoa-física costumam participar de redes como a Gavea Angels ou Anjos do Brasil. Quem aspira captar recursos para sua startup, pode inscrever-se no site da Anjos e apresentar sua proposta, explica Cassio Spina, empresário e fundador da organização.

Os potenciais investidores que participam do grupo visualizarão a proposta. Quando há interesse, promove-se encontros conhecidos como “pitchs”, em que o empreendedor tem até cinco minutos para expor sua ideia e tentar despertar o interesse do ‘anjo’. Nestas apresentações, Spina costuma mostrar em qual mercado pretende atuar, seus diferenciais e objetivos.

Qualidades que os ‘anjos’ procuram em você

Ele é bom empreendedor? Sabe driblar possíveis problemas? Conhece esta tecnologia? Estas são as perguntas mais frequentes que o ‘investidor-anjo’ costuma fazer ao avaliar uma proposta de negócios durante os pitchs, segundo o coordenador da ABVCAP.

A brasileira Ilana Grossman, executiva de marketing da Gust – empresa americana que reúne investidores-anjo em sua plataforma –, listou características específicas de empreendedores de sucesso que a maioria dos investidores-anjo procuram nos EUA, onde eles já injetaram capital em 10% de todas as empresas criadas no país, financiando US$ 20 bilhões. Veja quais são:

Inteligente

Os investidores procuram alguém que consiga pensar rápido e consiga improvisar em situações inesperadas, em um mercado que não esteja funcionando a forma planejada. Alguém que tenha capacidade de driblar uma ideia que não deu certo.

Inspirador

O empreendedor que tem a habilidade de inspirar a equipe, com poucos recursos disponíveis, é um profissional muito procurado todo mundo. Saber inspirar visão e empolgação à equipe é uma qualidade apreciada.

Competitivo

Ilana destaca, com base em grandes investidores, que novas ideias costumam aparecem juntas, no mesmo momento, durante os pitchs. Eles gostam de apostar em alguém que tenha esse espírito de competição, com ambição de destacar seu projeto frente aos concorrentes.

Flexível

Como nem todo projeto segue como planejado, a capacidade de mudar planos no meio do caminho é um ponto importante.

Apaixonado

Ninguém e empreendedor de sucesso só porque não quer trabalhar para os outros, segundo Ilana. Gostar muito do que faz e transmitir essa paixão à equipe é uma característica essencial para criar motivação.

Íntegro

A relação do investidor com o empreendedor é como um casamento. Investidores gostam de pessoas que sabem lidar com o fracasso, diz Ilana. Os americanos, por exemplo, gostam de investir em que já tentou e fracassou.

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