Filho de ex-drogado, Eduardo Lyra, 25 anos, escreveu livro sobre brasileiros pobres como ele que, com muita teimosia, deram certo. Eleito jornalista-revelação pelo Itaú Cultural, ele faz palestras motivacionais em empresas e escolas e busca novos “falcões”

Eduardo Lyra acredita que, não importa a origem, todos são capazes de mudar sua vida e o mundo
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Eduardo Lyra acredita que, não importa a origem, todos são capazes de mudar sua vida e o mundo

Um jovem que mora em uma favela violenta, dominada pelo tráfico de drogas, filho de um dependente químico, tem todas as chances do mundo de se tornar vitorioso, desde que seja muito persistente. O que pode parecer um contrassenso é o que prega o jornalista e escritor paulista Eduardo Lyra, 25 anos, criado na periferia de São Paulo.

Quando nasceu, um amigo deu à mãe um balde, tipo uma bacia, como pedido por ela. Serviria como berço para Eduardo por nove meses. Seu pai, Márcio Luiz, foi dependente de cocaína, seu tio morreu numa briga de bar, e o primo-irmão foi assassinado em uma boca-de-fumo em Guarulhos (SP) com a arma que acabara de trocar por drogas.

No senso comum, ele tinha tudo para dar errado. Mas Eduardo contradisse essa lógica e hoje faz sucesso, dando palestras motivacionais para executivos, escolas e eventos internacionais, como o Global Entrepreneuship Congress (GEC), de empreendedorismo, esta semana, no Rio.

“Ninguém escolhe onde vai nascer. O que menos importa é de onde você vem, mas para onde vai. Você pode decidir para onde vai, só precisa de iniciativa e persistência para dar certo. Todos podem fazer coisas grandiosas. É uma decisão de cada um”, diz Eduardo, que ainda mora com os pais, em Poá, no extremo leste de São Paulo.

Agressões respondidas em forma de declaração de amor

Eduardo lançou projeto
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Eduardo lançou projeto "Gerando Falcões", em que fala a jovens em escolas

“Viver numa favela é uma agressão diária. Quem vem de lá tem um monte de traumas, uma carga pesada: é criança violentada, agredida pelos pais... Ou se dá uma resposta ressentida à exclusão social ou transforma essa agressão em uma declaração de amor pela juventude. Hoje, faço isso de forma consciente. Esperavam que fosse bandido, sou o que não imaginavam que eu pudesse ser”, afirmou ele, escolhido Fórum Econômico Social de Davos um “global shaper”, jovem com potencial para “transformar o mundo”.

Ele pede aos jovens que façam a diferença impactando pessoas e o mundo com suas ideias, em vez de ganhar US$ 1 milhão antes dos 30 anos, meta dos anos 80. "Está abrindo uma nova modalidade de jovem, com um novo perfil: É o jovem que não quer ganhar R$ 1 milhão antes dos 30, é o que quer impactar, com seus produtos, ideias e inovações, um milhão de pessoas antes dos 30 anos", disse, em palestra.

Eduardo é uma simpatia e exala carisma, com sua fala rápida e paulistana. Abraça, como se fossem amigos de anos, o recém-conhecido e os fãs, que se aproximam em grupos, após a palestra no Global Entrepreneuship Congress, interrompida por aplausos e risos, a cada dois minutos. “Você é muito inspirador!”, é o que mais se ouvia de jovens bem-nascidos, no congresso de empreendedorismo, quarta-feira (20). Quando as palmas não vinham, ele mesmo pedia e as ganhava, imediatamente. “Vocês não vão bater palmas?” Mas jura que a bajulação e o reconhecimento não lhe “roubam a humildade”.

“Seu professor é um burro, um jumento, idiota”

Eduardo Lyra vendeu 5 mil livros porta a porta
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Eduardo Lyra vendeu 5 mil livros porta a porta

Depois de romper as barreiras iniciais e chegar ao “sonho” da faculdade, foi desencorajado por um professor de jornalismo, que o orientou a abandonar a carreira no primeiro texto, por escrever “muito mal”. Humilhado, encontrou no amor e na veemência da mãe o estímulo para seguir adiante. “Seu professor é um burro, um jumento, idiota, não sabe o que está falando!”, respondeu Maria Gorete, hoje com 43 anos.

Ele insistiu e hoje prega a persistência nos sonhos como a chave para qualquer um dar certo. Sugere que as pessoas se perguntem não se “vai dar certo?”, mas se “vale a pena?”. “Se tiver entusiasmo, brilho nos olhos, paixão, emoção, você consegue! É preciso ter muita teimosia, porque vai aparecer muita gente para dizer ‘não’ a você”, afirma.

No fim da faculdade, o encontro com uma das jornalistas mais premiadas do Brasil, Eliane Brum, mudou sua vida. “Se ela dizia que eu podia mudar o mundo, quem vai dizer que não? Transformei toda a agressão que vivi em amor e empreendedorismo, para inspirar os jovens.”

“Jovens Falcões”

Partiu para escrever um livro com as histórias de 14 jovens brasileiros de origem pobre que deram muito certo na vida, como empreendedores. Para bancar suas viagens para as entrevistas, vendeu tênis All-Star, calças jeans e o que mais aparecesse. Encontrou gente como Alessandra Freire, que batizou como “banqueira da esperança”. “Ela dizia assim para o cara da favela: ‘O que você quer fazer? Um salão de cabeleireiro? Eu acredito em você!’. Ouvia como resposta: ‘Mas o meu irmão está na cadeia...’ E dizia: Não importa quem é seu irmão, sua mãe, seu pai. Meu banco acredita em você!’”, contou.

Eduardo Lyra escreveu livro
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Eduardo Lyra escreveu livro "Jovens Falcões" para inspirar jovens brasileiros

Publicou com recursos próprios “Jovens Falcões – O Espírito Transformador da Juventude Brasileira”. Foi escolhido o jornalista-revelação pelo Itaú Cultural. Depois de vender de porta em porta os primeiros 5 mil exemplares, o livro foi lançado pela editora Novo Século, com prefácio de Marcelo Tas e contracapa do publicitário Washington Olivetto.

Criou o projeto “Gerando Falcões”, em que faz palestras gratuitas na rede pública de São Paulo, buscando inspirar os jovens a reproduzir seu sucesso. “Vou às escolas levando inspiração. Todo mundo pode! Quem nasceu na favela também pode. Só depende do cara! Alcancei 25 mil jovens em 2012.”

Ganha dinheiro com palestras em empresas e com a venda do livro. Diz que já teve inúmeros convites para estudar fora do Brasil, mas não quer sair do País. “Passo a bola. Quero aproveitar o melhor momento que estou vivendo.”

Terminou a grade de matérias, porém não pegou o diploma da faculdade de jornalismo – que já não é obrigatório para a profissão. E até se regozija de se sentir mais à vontade de falar aos meninos e meninas da periferia como um deles, sem diploma, embora já transite livremente nos dois mundos. Dá de ombros. “Para contar histórias e inspirar pessoas não se precisa de diploma.”


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