Shoppings buscam lojas de rua para atrair classe média e compor mix regional

Por Patrícia Basilio - iG São Paulo |

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Com ascensão da classe média, centros comerciais "cortejam"o pequeno comércio popular

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Ricardo Hidaka, um dos sócios do Bar do Bolinho

Em um país onde mais da metade (53%) da população faz parte da classe média, segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, muitos dos 457 shoppings em operação no Brasil estão sendo forçados pelo mercado a reformular o mix de lojas e trazer estabelecimentos populares de rua para seus corredores.

Nesse novo cenário, grandes redes varejistas, franquias e grifes de moda ficam porta a porta com pequenos estabelecimentos de bairro, como boutiques de roupas, armarinhos e bares.

“Os shoppings fazem grandes esforços para ter esses lojistas de rua com eles. O objetivo é trazer esses consumidores populares, que hoje têm maior renda e mais acesso ao crédito”, afirma Adriana Colloca, superintendente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).

Segundo lojistas ouvidos pelo iG, os shoppings não só convidam o empresário para abrir uma unidade no centro, como também negociam valores de aluguel, espaço e condomínio. A proposta, dizem, é “bastante atrativa”.

Esse foi o caso do Bar do Bolinho, lanchonete criada em 1968 com duas unidades de rua em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo). No ano passado, o bar foi convidado pela BR Malls para abrir uma unidade no recém-inaugurado São Bernardo Plaza Shopping.

“Tive receio de abrir uma loja no shopping porque nosso público é muito tradicional e os custos são maiores, mas o convite foi bastante atrativo e o ponto oferecido também era muito bom”, conta Ricardo Hidaka, 32, um dos sócios do bar.

Segundo Alex Trajano, gerente de marketing do São Bernardo Plaza Shopping, o interesse no Bar do Bolinho veio a partir do projeto de regionalização do centro de compras. “Entendemos que a marca é muito forte e tradicional na região. Sempre buscamos parceria com marcas locais importantes e de grande reconhecimento”, explica a gerente.

Tive receio de abrir uma loja no shopping porque nosso público é muito tradicional e os custos são maiores, mas o convite foi bastante atrativo

As duas unidades de rua do Bar do Bolinho registraram crescimento médio do faturamento de 15% em 2012, segundo Hidaka. Para a nova unidade no shopping, afirma, a expectativa é que registre o mesmo índice de expansão em 2013. “A ideia [que eu tinha] de que meus produtos iam ser prejudicados pela concorrência das grandes lojas não procedeu.”

Para encontrar lojas com alto potencial de venda, os dez shoppings da administradora Sonae Sierra Brasil, que se dividem nos Estados de São Paulo, Amazonas, Minas Gerais e Paraná, contam com equipe de planejamento que vasculha as ruas e pequenos centros comerciais do País.

O objetivo, segundo Waldir Chao, diretor de operações da administradora, é trazer esses estabelecimentos para dentro do shopping e aumentar o fluxo de vendas e de pessoas. “Buscamos lojas que reflitam a comunidade local e comercializem produtos adequados para o público-alvo de cada shopping”, destaca Chao.

O Shopping Praça da Moça, em Diadema (na Grande São Paulo), administrado pelo AD Shopping, também tem interesse em estabelecimentos de rua, principalmente quando eles aumentam o mix de lojas e trazem ares regionais ao centro de compras.

“A procura por parte dos lojistas também é grande porque o shopping oferece mais segurança, praticidade e proporciona um ambiente familiar em um único local”, contrapõe Miriam Cassarolli, gerente geral do shopping.

Perfil do shopping
Para Marcelo Sinelli, consultor de marketing do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae), as lojas populares são realmente a bola da vez para os shoppings. Com a ascensão da classe média, atrair esse público significa ter maior receita, afirma.

Mas antes de ingressar em um centro comercial, contudo, o empresário deve avaliar se terá condições de custear o aluguel, taxa de condomínio, luvas (valor pago ao locatário para uso do espaço comercial), fundos de promoção, além de paciência para lidar com as regras da administradora (veja o que é necessário avaliar abaixo).

O lojista tem que estar maduro para entrar em um shopping grande. A margem de erro é menor quando os custos são tão grandes

“O lojista também precisa ver se seu produto tem a ver com o perfil do shopping. Não adianta vender roupas populares e baratas em um shopping totalmente focado na classe A”, exemplifica o consultor do Sebrae-SP.

E os cuidados não param por aí. De acordo com Daniel Alcântara Nastri Cerveira, sócio-fundador do escritório Cerveira Advogados Associados e autor do livro “Shopping Center: Limites na Liberdade de Contratar” (Ed. Saraiva), o empreendedor deve ficar atento ao fluxo de pessoas em shoppings novos, que geralmente é pequeno até o centro comercial ganhar popularidade.

Segundo a Abrasce, 47 shoppings devem ser lançados no país ainda este ano. “É preciso preparar o fluxo de caixa para lidar com esse começo”, aconselha.

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Marcos dos Santos, dono da loja Mik Hope

O valor do aluguel em um shopping, segundo o advogado, varia de R$ 50 a R$ 500 o metro quadrado, de acordo com o perfil do centro comercial, metragem do espaço e localização da loja.

A marca de roupas Mik Hope, do empresário Marcos dos Santos, 31, reúne duas lojas de rua em Diadema. Desde junho do ano passado, a rede ganhou uma nova unidade no Shoppinho Santo André, pequeno centro comercial no Centro de Santo André.

O convite para a abertura dessa loja veio por parte do próprio shopping. Na negociação, Santos conseguiu um espaço privilegiado ao lado da escada rolante.

Meses antes de fechar o contrato, contudo, o empresário recebeu outra proposta para entrar em um grande centro comercial do ABC Paulista. Ele negou. “Achei que o fluxo de pessoas no dia a dia era baixo. Como o 'shoppinho' fica no centro de Santo André, as pessoas frequentam o local o tempo todo”, explica o empresário.

Para estar no centro comercial, o dono da Mik Hope afirma arcar com custos 30% maiores que os das lojas de rua. “Um shopping maior seria ainda mais caro. Temos de subir degraus de acordo com a nossa capacidade”, afirma Santos, ressaltando que o faturamento de suas lojas cresce em torno de 30% ao ano.

Na avaliação de Sinelli, Santos está no caminho certo: “O lojista tem de estar maduro para entrar em um shopping grande. A margem de erro é muito menor quando os custos são tão grandes.”

Veja o que é necessário avaliar antes de entrar em um shopping:

  1. Segurança do local
  2. Regras do condomínio
  3. Fluxo de caixa
  4. Capacidade de produção
  5. Disponibilidade de fornecedores
  6. Verba para customização da loja
  7. Quantidade de vagas no estacionamento
  8. Valor do aluguel, condomínio, luvas e fundos de promoção

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