Juros atrativos do crédito consignado podem esconder armadilha

Por Taís Laporta - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Com algumas das taxas mais baixas do mercado, este tipo de empréstimo consome até 30% da renda mensal e compromete o orçamento doméstico. Saiba como usar o crédito

Ainda que o consignado seja uma das linhas de crédito mais baratas no mercado, a facilidade em obtê-lo em bancos e financiadoras e o comprometimento direto da renda podem transformar este tipo de empréstimo pessoal em armadilha financeira, alertam especialistas em finanças ouvidos pelo iG.

Thinkstock/Getty Images
Modalidade de crédito é oferecida para assalariados dos setores público e privado e para pensionistas do INSS, com taxas diferentes em cada categoria

O maior risco é esquecer que o salário ou benefício ficará automaticamente menor com o empréstimo, já que o pagamento da dívida é descontado diretamente das empresas que pagam estes valores. Tanto para pensionistas como para trabalhadores assalariados – públicos ou privados –, as parcelas da dívida não podem comprometer mais que 30% do salário ou benefício.

“Este limite é muito alto e pode comprometer o orçamento doméstico”, adverte Wilson Muller, consultor financeiro da fundação Cesp, para quem as taxas mensais cobradas pelas instituições financeiras são menores que outros tipos de empréstimos (entre 1,5% e 3,2%, incluindo bancos e financeiras), devido à garantia dos credores em obter o pagamento.

O ideal seria que as parcelas do consignado, segundo a Serasa Experian, não comprometessem mais do que 25% da renda mensal, já que a dívida não é a única conta fixa do consumidor.

No caso de funcionários privados e servidores públicos, são os empregadores que se responsabilizam por repassar a parcela ao banco ou financeira. Já no caso dos aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), é a própria Previdência que faz o desconto do benefício.

Somente para este último público, o crédito consignado cresceu 41,60% em março de 2013, em comparação ao mesmo período de 2012, movimentando R$ 3,693 bilhões, segundo dados do Ministério da Previdência.

Para o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), William Eid, aposentados e pensionistas são os mais prejudicados por esta modalidade de crédito. “Não concordo com o empréstimo consignado para aposentados. Eles já possuem uma renda limitada e muitas vezes fazem o empréstimo para ajudar terceiros, que podem não honrar com o pagamento da dívida", alerta o especialista.

Oportunidades e riscos

O melhor uso deste tipo de crédito, segundo Muller, da Fundação Cesp, é em situações de emergência, como gastos inesperados com saúde ou necessidade de uma reforma da moradia. “Trocar uma dívida cara, como cheque especial ou cartão de crédito, pelo consignado, que tem juros bem mais baixos, também é uma opção inteligente”.

Apesar de a taxa média anual do crédito pessoal ser uma das menores do mercado – 41,58% em março de 2013, comparada aos 192,94% do cartão de crédito (veja abaixo), segundo estudo da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) –, o valor ainda é muito alto, na opinião de Muller.

Compare os juros das principais linhas de crédito em abril de 2013:

LINHA DE CRÉDITO       TAXA MENSAL                         TAXA ANUAL
Juros do comércio                4,1%                                  61,96%                    
Cartão de crédito                9,37%                   192,94%
Cheque especial                7,7%                   143,55%
CDC (automóveis)                1,54%                   20,13%
Crédito pessoal (bancos)                2,94%                   41,58%
Crédito pessoal (financeiras)                6,91%                   122,96%
Média                5,43%                   88,61%
Fonte: Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac)


“Entre os seis maiores bancos do Brasil, os juros do crédito consignado estão em torno de 30% ao ano, quatro vezes acima da taxa básica de juros (que está nos atuais 7,5%)”, compara.

Além do valor das parcelas, outro risco do consignado é contratar um financiamento por período muito longo, e ter a renda reduzida por anos. Caso o trabalhador mude de emprego ou seja demitido, ela deverá ser quitada de uma só vez, de acordo com a Serasa.

Em caso de demissão do trabalhador, lembra Muller, o empregador tem o direito de reter até 30% do valor da recisão do contrato do ex-funcionário para pagar o empréstimo. “Há também a opção de o consumidor ficar com toda a rescisão e renegociar a dívida diretamente com o credor”.

Fazer um empréstimo consignado para comprar um carro, por exemplo, pode não valer a pena. Os juros mensais do CDC (Crédito Direto ao Consumidor), que financia o bem diretamente, estão em 1,54%. As taxas cobradas pelos maiores bancos no consignado, de acordo com o Banco Central, variavam de pouco mais de 1,5% até quase 2,9%, em abril deste ano.

Compare os juros

Veja as taxas mensais do crédito consignado cobradas em abril de 2013 nos maiores bancos

Gerando gráfico...
Banco Central

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas