Dênis e Hugo aprovaram o apartamento, mesmo com a cama king size com que sonhavam não cabendo no quarto
Para sair da kitnet em que moram e conseguir mais espaço sem sair do centro, Hugo Paredes, 27 anos, e Dênis Deleutério, 25, vão contar com a ajuda dos pais. Hugo, médico e paulistano, não quer deixar a região em que sempre morou. Dênis, advogado, está ali desde que chegou à capital, há dois anos.
Só com o reforço dos pais de Hugo é que o apartamento usado de 1 quarto na Bela Vista coube no orçamento dos dois. O mesmo não se pode dizer dos móveis.
“A impressão que dá é que foi feito para alguém solteiro. Por exemplo, não cabe uma cama king size”, conforma-se Dênis. “Pelo valor, dava até para conseguir maiores, mas eu não abro mão do centro. Ele trabalha aqui e eu me desloco para os quatro cantos da cidade. Fica mais fácil”, diz.
“Todo mundo quer um apartamento ali. O jovem quer tocar a botoeira do elevador e cair no meio da balada, além de ficar perto do trabalho”, afirma João Meyer, doutor arquitetura e urbanismo e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
Atento a essa demanda por imóveis menores no centro – e aos sinais de que as intervenções urbanísticas prometidas vão ganhar velocidade --, o mercado imobiliário vem apostando na região. De 319 em 2009, o número unidades de 1 dormitório lançadas em distritos da região alcançou 1.292 em 2011, de janeiro a novembro.
“Eu sempre estive de olho no centro. Lá tem tudo, só falta um pouquinho de boa vontade. O 1 dormitório é a cara do centro”, diz Antônio Setin, presidente da empresa que leva seu sobrenome. No ano passado, sob o conceito Downtown, lançou dois prédios, de 1 e 2 dormitórios: um na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, na Bela Vista, e outro na Avenida São João, em Santa Cecília.
E para 2012? “Ainda não podemos divulgar o local”, diz a empresa em nota. Reserva também mantida pela Coelho da Fonseca. “Temos sim (planos de lançamentos), mas são confidenciais”, diz Fátima Rodrigues, diretora geral de vendas.
“Lançamos um loft que atende muito esse público de 1 dormitório, que é mais exigente, quer pé direito duplo, gosta de regiões diferenciadas. Dá para levar isso para o centro de São Paulo”, afirma Fátima.
O problema é o preço. “Em um ano, o m² explodiu”, afirma Meyer. “É preciso abrir a possibilidade de se construir imóvel mais barato. Aí pessoas que não tenham grande capacidade financeira podem morar no centro. O que é benéfico.”
“Os prédios de apartamento"
Os 260 metros da Rua Paim, na Bela Vista, dão uma ideia do interesse do mercado imobiliário pelo centro. A quadra, que ainda abriga alguns casebres e comércios pequenos, separa duas ruas badaladas da região: a Avanhandava, recheada de restaurantes, e a Frei Caneca, conhecida pela cena cultural e gay.
Só nesse trecho há pelo menos três empreendimentos já iniciados: dois em obra e um na fase de lançamento. Da soleira de seu mercadinho/hospedaria para migrantes, Moacir Francelino, 45 anos, descreve como a fachada do outro lado da rua foi transformada de cortiço em um tapume preto. Um quarto terreno, diz ele, também vai virar “prédio de apartamentos”.
“Derrubaram tudo aqui. Os proprietários foram vendendo. A dona até me ofereceu para eu comprar este aqui, há 3 anos atrás, por R$ 270 mil”, diz sobre o mercadinho. “Agora deve estar valendo R$ 1,4 milhão, porque o daqui do lado é menor e foi vendido por R$ 1,2 milhão”, diz.
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