Hoje é dia de almoço na casa da dona Maria. A família vai toda prá lá. Rodrigo, o filho mais velho, mora na casa dos fundos e leva a esposa e a criançada. Malu, a filha do meio, já mora na casa da dona Maria com a filha Isabel e domingo recebe o Beto, namorado e pai da menina. Edu, o filho mais novo, que também mora lá, vai receber a moçada. Tem o Zelão, o Miguel e o Lucas, que juntamente ao Edu, formam uma banda de rock presente nas baladas do bairro.
Essa é apenas uma parte dos convidados. Dona Maria tem duas irmãs que também estão sempre presentes com suas famílias. A Dagmar é viúva e vai com seus dois filhos, a Laura e o Gustavo. A outra irmã se chama Vanda e comparece com o marido, Amadeu, e com a filha Tainá, que acabou de completar 10 anos. Alguns amigos e amigas da dona Maria são figuras constantes no almoço de domingo, como o Estevão, o Wanderson e a Tereza que traz a filha Lívia, afilhada da dona Maria.
Pode parecer impossível, mas a dona Maria recebe todo esse pessoal e não falta comida. É certo que cada um traz um prato pra ajudar a compor o almoço. A mesa fica farta e variada. Tem lingüiça toscana, picanha, dobradinha, torta de palmito, lasanha e strogonoff de frango. Para sobremesa, fica fácil. É só abrir dois potes de sorvete de 2 litros que o assunto está resolvido.
Como a dona Maria consegue reunir toda essa gente? Além de o almoço ser comunitário, ela trabalha muito para prover a casa. Serviço não falta. Ela é diarista em casas de família de segunda a sábado. Dá para fazer até duas faxinas por dia, dependendo do tamanho da casa. A geladeira anda cheia nos últimos anos. Bem diferente daquele tempo de inflação, que corroia a renda da dona Maria.
A casa da nossa protagonista também está bem equipada. Tem sofá novo, geladeira duplex, TV de plasma e computador com impressora. Tudo foi comprado no carnê ou no cartão, que devidamente parcelado, coube no orçamento da dona Maria. Essas compras foram possíveis graças à expansão do crédito, que permitiu às pessoas antecipar o futuro e usufruir de uma vida mais confortável. A economia agradece e gera empregos aos montes.
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Como controlar tanta despesa assim? Todo sábado de manhã tem reunião na casa da dona Maria. Ela chama o Rodrigo, que paga a conta de luz e internet da casa dele e dela, porque mora nos fundos sem pagar aluguel. A Malu paga a prestação do computador, comprado recentemente e dá mais R$ 200 para as despesas diversas. O Edu não tem emprego fixo, mas com os shows da sua banda, aos sábados e domingos, ele ajuda com R$ 100 por mês. Dona Maria fica com as despesas de supermercado e com o pagamento do cartão de crédito. Todas as contas são analisadas em família e as novas compras são priorizadas. Esqueci de falar que o marido da dona Maria foi embora há muitos anos e nunca mais deu notícias. Sobrou tudo para ela.
Para complicar um pouco as coisas, dona Maria emprestou o cartão de crédito para sua irmã Dagmar, que perdeu o marido recentemente. Ela estava passando dificuldades e não teve como não ajudá-la. O Zelão, amigo do Edu, comprou no mês passado uma guitarra com o cartão da dona Maria também. A primeira parcela ele não pagou, mas jura que no mês que vem ele acerta a situação.
Outro fato crítico é a tentativa da dona Maria de segurar o impulso das pequenas compras, aqueles mimos que não são previstos e podem derrubar o orçamento da família. Um almoço no shopping, uma calça de marca, um presente pro aniversário da afilhada... Henry Ford, o pai da indústria americana, dizia que o fracasso estava em cem pequenas coisas feitas um pouco pior. Isso serve para as pequenas despesas. Parecem inofensivas, mas juntas criam um grande rombo no bolso de qualquer um.
Este é um retrato da nova classe média, que hoje possui 95 milhões de pessoas, metade da população brasileira. São pessoas batalhadoras, que lutam por uma vida melhor. Eles aprenderam que a convivência pode melhorar a situação de todo mundo. A ajuda é mútua e dessa forma buscam o bem comum. O crédito é algo novo para eles, mas já o usam com vigor. Pode ser no cartão, no cheque pré, no carnê ou no cheque especial. Também tem o crédito consignado, que trouxe um grande fôlego para trabalhadores de carteira assinada, aposentados e pensionistas.
Amigos, amigos; dívidas à parte
O risco está na dose excessiva e na falta de controle. Fazer orçamento exige disciplina. Colocar tudo na ponta do lápis. Tem que ser meticuloso, mesmo. Levar um bloquinho na bolsa e anotar tudo com o qual o dinheiro é gasto ou registrar no bloco de notas eletrônico do celular. Mesmo que tenha usado o cartão de crédito, precisa anotar, porque em breve chega a fatura e... Muitas pessoas se assustam quando descobrem tudo aquilo que têm pra pagar. Dívida boa é aquela que proporciona qualidade de vida e não complica o nosso sono e a nossa saúde financeira.
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O hábito de se endividar pelo outro ou emprestar o cartão de crédito é algo preocupante. Não basta a dona Maria ser controlada se os outros a endividam indiretamente. Por mais amigo que o vizinho ou o parente possam ser, não é prudente misturar as coisas. Zelar pelo bom uso do cartão e do crédito de maneira geral deveria ser o principio básico dos usuários desses produtos. A melhor forma de ajudar um amigo é ensinando a ele como controlar suas finanças, e não se atrapalhando junto. Às empresas do setor financeiro fica a missão de educar seus clientes no uso dos produtos financeiros, incentivar a poupança e disponibilizar produtos cada vez mais simples, com serviço de apoio no pacote.
A nova Economia Brasileira faz com que todos tenham que aprender para ensinar. Essa construção é um processo coletivo e isso é muito bom. E o próximo almoço em família já está chegando...
*Fábio Moraes é diretor de Educação Corporativa da Febraban
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