O fracasso da Rodada Doha poderá provocar a eclosão de guerras comerciais ao redor do mundo, avaliam especialistas que acompanharam as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Boa parte das disputas, inevitavelmente, será levada à arbitragem da própria OMC, cujo perfil de tribunal do comércio internacional tenderá a ganhar relevância.

No caso do Brasil, o fim da negociação multilateral acaba com a possibilidade de solução pacífica para a controvérsia em torno dos subsídios dos Estados Unidos à sua produção de algodão. O País deverá abrir outras três frentes de conflito com Washington na OMC, entre as quais o questionamento da política de proteção ao mercado americano de etanol.

"O mundo estará mais propenso às guerras comerciais. O fracasso da Rodada Doha não favorece a descontração, mas a exacerbação das diferenças comerciais", afirmou o embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

"Não adianta esperar que a OMC venha a reforçar sua função reguladora do comércio em menos de três anos, quando poderá resgatar a Rodada. Sua própria existência está comprometida" , completa.

A direção da OMC igualmente vislumbrava, para curto e médio prazos, a elevação das tensões comerciais, enquanto tentava ontem responder à perplexidade das economias mais pobres e às lamentações dos parceiros mais relevantes com a frustração do acordo - exceto, obviamente, a China e a Índia. Um técnico da OMC avaliou que haverá uma busca desenfreada por acordos bilaterais e regionais.

Para Botafogo, o fracasso das negociações mostrou o limite do multilateralismo e a predominância da visão dos custos políticos internos sobre os ganhos comerciais. No caso do Brasil, tornou-se "flagrante" o fracasso da união tática de países em desenvolvimento na área agrícola. A alternativa da negociação de acordos comerciais pelo Mercosul trombará nos mesmos obstáculos verificados na Rodada. O bloco conseguirá, no máximo, acordos parciais. Se bem negociados, tenderão a acabar com a escalada tarifária para produtos brasileiros.

O ex-chanceler Celso Lafer, entretanto, prefere apostar em uma última tentativa de resgate da Rodada em setembro próximo, como resultado de consultas informais que certamente continuarão na agenda dos ministros de Comércio.

"A diferença de posições não é tão grande para acabar com a esperança em um acordo. Esse revés atrapalha a importância da OMC no plano internacional e deve estressar o seu sistema de solução de controvérsias", avaliou Lafer.

Sanções

André Nassar, diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), deixa claro que não haverá como o Itamaraty escapar de aplicar retaliações contra os EUA, se a arbitragem da OMC conceder tal direito ao País como reparação ao fato de o governo americano não ter mudado suas políticas de subsídios ao algodão. Até ontem, a expectativa do Brasil e dos EUA era de alcançar uma solução pacífica no bojo do acordo da OMC, que evitasse sanções comerciais - algo que, na avaliação da diplomacia brasileira, traz perdas para ambos os lados, ao reduzir o intercâmbio.

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única) antecipou que deverá demandar ao Itamaraty a apresentação de uma queixa contra as barreiras impostas pelos EUA à importação de etanol. Ao lado do Canadá, o Brasil mantém em curso a controvérsia contra o total de subsídios agrícolas concedidos pelos EUA a seus agricultores, que tende a perder fôlego por causa da alta dos preços das commodities. Há ainda a possibilidade de o Brasil iniciar uma briga contra a política de Washington de proteção ao seu mercado açucareiro.

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