O ex-presidente de República Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje que o PSDB deve apoiar o governo na adoção de medidas estruturais que ajudem a economia do País a ficar mais resistente à crise financeira internacional. A crise está aí, apesar da propaganda oficial de que não chegará até nós.

Está chegando, vai chegar. O PSDB tem que agir responsavelmente. Crise é crise e afeta a todos, não é só um pedaço do Brasil", destacou, após deixar o Colégio Sion, em Higienópolis, onde foi votar no período da manhã.

Na avaliação do ex-presidente, a postura do PSDB na votação das Medidas Provisórias 442 e 443, que deverá ocorrer nos próximos dias no Congresso, deve ser criteriosa, pois é importante proteger a economia nacional. Mas tais ações precisam ser transparentes a fim de evitar a proteção de interesses particulares. Apesar da defesa para que o PSDB tenha uma ação responsável, FHC não deixou de criticar: "Foi dado muito poder ao Banco Central, um arbítrio muito grande para fazer o que quiser, com quem quiser e isso pode levar a um protecionismo."

O ex-presidente afirmou que é positiva a posição defendida pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), de que o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União acompanhem as medidas que o governo deve adotar. "Tudo que for importante para o Brasil, o PSDB deve votar a favor. Não deve fazer o que o PT fez comigo, ao fazer restrições às matérias que são mais significativas."

Atraso

FHC ressaltou que o Palácio do Planalto demorou para se posicionar em relação à crise. "Houve atraso em tomar consciência da situação. Isso é indiscutível. O Brasil inteiro viu o presidente dizer que vamos ter o melhor Natal do mundo, que aqui não virá a crise. Isso é um engano." Mas ponderou: "Não quero criticar o Lula por isso. Não é o momento para isso."

O ex-presidente tucano ressaltou que o governo "ainda está devendo" na tomada de medidas para reduzir as despesas públicas, especialmente dos gastos correntes, pois será inevitável que a crise reduza o nível de atividade e as receitas federais no próximo ano. "Alguém tem dúvidas de que haverá uma diminuição dos recursos fiscais no ano que vem? Portanto, o governo já deveria ter cortado (gastos)."

Sobre a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que poderá cortar despesas do Orçamento do próximo ano em função do agravamento da crise internacional, Fernando Henrique Cardoso disse que tal pronunciamento veio tarde, pois há duas semanas, o Poder Executivo decidiu conceder aumentos a uma parcela do funcionalismo e contratar mais servidores públicos. "O governo está contraditório. Imaginava uma situação rósea. Eu não torço para o quanto pior melhor, ao contrário. Mas, como a situação não é rósea, é preciso tomar (os remédios) a tempo oportuno."

FMI

FHC rebateu os comentários de Lula de que precisou recorrer ao Fundo Monetário Internacional porque o governo antecessor era mais frágil: "O presidente Lula confunde alhos com bugalhos. As crises que tive que enfrentar eram de ataque à moeda, crise cambial. A que está aí, não é isso. É uma crise de liquidez bancária, que se reflete aqui no crédito e, depois, de especulação cambial no Brasil."

O ex-presidente deixou claro que, na sua avaliação, o Brasil não precisa recorrer agora ao FMI, pois, entre outros fatores, possui reservas cambias pouco superiores a US$ 200 bilhões. Porém, ele destacou que apenas ter poupança externa volumosa não afasta qualquer país da crise, ressaltando que a Rússia tem US$ 550 bilhões e está "numa crise tremenda". Ele salientou que a atual crise internacional não envolve só problemas de liquidez do sistema interbancário, mas também de confiança dos agentes econômicos.

EUA

O ex-presidente disse que as saídas para a crise devem vir do campo político. E citou que um fator importante que deve colaborar para a solução da crise econômica mundial no médio prazo é a sucessão presidencial nos Estados Unidos, que poderá eleger o candidato democrata, o senador Barack Obama, que vem sendo assessorado pelo ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) Paul Volcker.

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