O fracasso nas negociações para a venda do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, após o principal candidato à compra, o Barclays, ter desistido do negócio, colocou a instituição à beira da liquidação. Mas o medo da crise que a quebra do banco provocaria nos mercados financeiros globais precipitou ontem uma série de medidas, que envolvem a ampliação da ajuda do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aos bancos e uma linha de crédito de US$ 70 bilhões para instituições em dificuldades, criada por um grupo de dez bancos internacionais.

Além disso, o Bank of America fechou acordo para a compra do Merrill Lynch, o terceiro maior banco de investimentos dos EUA, o que ajuda a restaurar a confiança nos mercados. E a American International Group, gigante dos seguros americana, que também vem sendo afetada com a crise das hipotecas de alto risco, deve anunciar hoje uma grande reorganização.

Uma das principais medidas anunciadas ontem pelo Fed é a ampliação dos tipos de garantias que os bancos podem apresentar para conseguir linhas especiais de crédito. Essas linhas foram aumentadas de US$ 175 bilhões para US$ 200 bilhões. A ampliação da ajuda do Fed às instituições financeiras é uma reviravolta em relação à decisão anterior do governo americano - depois de duras críticas - de não mais socorrer as vítimas da crise de crédito.

O primeiro socorro foi em março, ao Bear Sterns, quando o Fed intermediou negociações envolvendo US$ 30 bilhões para que o JP Morgan Chase ficasse com o banco. No fim de semana passado, as gigantes Fannie Mae e Freddie Mac receberam um aporte de US$ 200 bilhões.

A incerteza criada após o impasse nas negociações para a venda do Lehman Brothers acabaram forçando o banco central americano a tomar uma nova atitude nesse sentido. O Fed participou de uma série de reuniões nos últimos três dias com representantes das principais instituições financeiras em Wall Street "para identificar debilidades potenciais no mercado à luz dos problemas de uma grande instituição financeira, e para considerar as respostas apropriadas", disse o presidente do órgão, Ben Bernanke. Os passos anunciados ontem, segundo Bernanke, "têm como objetivo mitigar os riscos e alterações potenciais nos mercados".

O medo de uma quebra do Lehman Brothers, com seu potencial efeito devastador sobre os mercados financeiros globais, também foi a mola propulsora da decisão de dez bancos - Bank of America, Barclays, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JP Morgan, Merrill Lynch, Morgan Stanley e UBS - de criarem um fundo de US$ 70 bilhões para ajudar instituições financeiras em dificuldades. Cada um dos bancos entra com US$ 7 bilhões no fundo.

Outra boa notícia para os mercados financeiros é a compra do Merrill Lynch pelo Bank of America. O terceiro maior banco de investimentos dos Estados Unidos também vinha atravessando momentos de grande turbulência, e fechou o segundo trimestre com prejuízo de US$ 4,6 bilhões. Para analistas, com uma eventual quebra do Lehman Brothers, o Merrill Lynch poderia se transformar na próxima vítima, com conseqüências ainda mais imprevisíveis para os mercados.

Segundo o Wall Street Journal, o Bank of America vai pagar US$ 29 por ação do Merrill Lynch, em uma transação de cerca de US$ 44 bilhões. Ironicamente, até o sábado, o Bank of America era considerado um forte candidato à compra do Lehman.

Com toda essa movimentação, o que ainda não fica claro é o destino do próprio Lehman Brothers. Com 158 anos de atividade, a instituição foi derrubada pela crise das hipotecas de alto risco, o subprime, e acumula US$ 85 bilhões em ativos podres, principalmente os de caráter imobiliário.

Ontem, uma das hipóteses aventadas para o banco, segundo o The New York Times, seria fazer com que as subsidiárias do Lehman permanecessem solventes, enquanto a holding seria liquidada.

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