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Favoritismo de Obama expõe uma profunda transformação nos EUA

WASHINGTON - Os Estados Unidos irão às urnas hoje para escrever o último capítulo da batalha que seus dois maiores partidos políticos iniciaram há dois anos pelo controle da Casa Branca, num momento em que a sociedade americana e a maneira como ela é vista pelo resto do mundo sofrem profundas transformações. As pesquisas indicam que o candidato do Partido Democrata, Barack Obama, será eleito com uma vantagem expressiva sobre seu rival, o republicano John McCain. Se isso acontecer, será a primeira vez que um negro é escolhido para liderar a nação mais poderosa do planeta, um país que levou um século para abolir a escravidão e outro para dar cidadania aos negros.

Valor Online |

Obama chegou ao fim da campanha com o apoio de 52% do eleitorado e 7,5 pontos percentuais na frente de McCain (veja gráfico), segundo o site Real Clear Politics, que faz uma média das pesquisas de dezenas de institutos. Projeções de analistas indicam que essa vantagem é suficiente para assegurar os 270 votos necessários para alcançar a maioria no Colégio Eleitoral que indicará o novo presidente após a votação popular.

Obama, de 47 anos, um político pouco experiente que era um desconhecido para a maioria dos americanos até meados do ano passado, conquistou a adoração de milhões de eleitores pelo país prometendo mudar a maneira como se faz política nos EUA e deixar para trás as profundas divisões ideológicas que racham a sociedade americana.

McCain, de 72 anos, um político veterano que é respeitado até pelos adversários pela coragem que demonstrou nos anos em que foi prisioneiro de guerra no Vietnã, iniciou a campanha prometendo desafiar os dogmas republicanos e concluiu sua participação fazendo concessões à direita conservadora para animar as suas bases partidárias.

Os eleitores americanos comparecem às urnas deprimidos e com medo do futuro. Segundo as pesquisas, eles nunca estiveram tão insatisfeitos com os rumos do país. Eles estão fartos do presidente George W. Bush, que é republicano. Nunca um governo teve índices de popularidade tão baixos como os de Bush, que conta hoje com o apoio de somente um quarto da população.

Os EUA estão envolvidos em duas guerras, no Iraque e no Afeganistão, que já provocaram a morte de 4,8 mil americanos. A liderança do país no cenário internacional é vista em toda parte com enorme ceticismo. A economia entrou em recessão, e milhões de americanos estão perdendo suas casas por não conseguir mais honrar suas dívidas.

Esse estado de coisas criou um ambiente muito propício para os democratas, mas não é a única explicação para o favoritismo de Obama. O eleitorado americano está mudando bastante, e é possível que as transformações em curso estejam criando as condições necessárias para que os democratas se mantenham no poder por um bom tempo.

Estão registrados para votar na eleição 153 milhões de eleitores, o equivalente a 74% da população com idade para votar. É um recorde para um país onde o voto não é obrigatório e onde muitas pessoas nem sequer têm título de eleitor. Jovens, negros e hispânicos, três grupos que tendem a favorecer Obama e os democratas, estão aumentando bastante sua participação no eleitorado.

Em 2000, quando George W. Bush foi eleito para seu primeiro mandato, 40% dos eleitores com menos de 30 anos de idade participaram da eleição. Em 2004, 49% saíram de casa para votar. Metade dos 9 milhões de novos eleitores que se registraram para participar desta eleição se encontram nessa faixa etária. Dois terços desses eleitores votam em Obama, segundo as pesquisas.

Assim como Obama, esses novos eleitores não participaram de nenhuma das batalhas ideológicas que dividiram a sociedade americana na década de 60 em torno de questões como os direitos dos negros e o aborto. As pesquisas sugerem que eles são mais tolerantes e menos preconceituosos do que os seus pais.

O eleitorado de origem hispânica, que hoje representa 12% do total, é o que mais cresce no país. Ele se dividiu quase ao meio entre republicanos e democratas na eleição de 2004, mas desta vez abandonou os conservadores por causa da agressividade com que o governo Bush tem perseguido imigrantes que vivem ilegalmente no país.

Os negros, que nos últimos anos participaram do processo eleitoral com bem menos entusiasmo do que outros grupos, desta vez correram para votar em Obama. Na Geórgia, um dos Estados nos quais os eleitores puderam votar antecipadamente nas últimas semanas, negros e membros de outras minorias que representam 29% do eleitorado estadual depositaram 35% dos votos recolhidos até ontem.

Combinadas com a insatisfação do eleitorado com Bush e a crise na economia, essas mudanças permitiram que Obama avançasse nos últimos meses sobre o território republicano, passando à frente de McCain em Estados que por muitas décadas foram dominados pelos conservadores e asseguraram a vitória para seus candidatos em sete das últimas dez eleições presidenciais.

Se Obama vencer, muitos especialistas acham que a reconfiguração do eleitorado americano poderá inaugurar uma nova era de hegemonia dos democratas sobre o processo político nos EUA. O partido já controla as duas casas do Congresso, e suas bancadas devem aumentar com a eleição de hoje, em que estarão em jogo também as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado. Na história recente do país, os democratas só tiveram tanto poder concentrado em suas mãos em dois períodos: nos anos da Grande Depressão e na primeira metade da década de 60.

(Ricardo Balthazar | Valor Econômico)

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