No fevereiro chuvoso de 1980, o jovem casal Maria da Penha, de 28 anos, e Antonio dos Santos, de 25, era mais uma pobre família de migrantes que acabara de chegar à Favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Em um barraco de dois cômodos com chão de terra, eles iniciaram com os três filhos pequenos um futuro incerto na ocupação que crescia nos arredores de bairros nobres.

"Nos temporais, a água entrava dentro de casa e arrastava o esgoto que corria pela rua. Era um desespero. Ninguém sabia até quando poderíamos morar ali", relembra Penha, hoje com 56 anos.

Quase três décadas se passaram e o casal continua em Paraisópolis. Agora, em uma casa de 17 cômodos com escritura, avaliada em R$ 202 mil por corretores que já trabalham no bairro e com valor venal de R$ 130 mil. A residência de três andares e um subsolo tem quatro suítes, escada de madeira imbuia em estilo colonial, portão eletrônico, três salas e garagem para quatro carros. Além de o imóvel estar em um dos 192 lotes da ocupação regularizados pelo governo municipal desde 2006, um advogado do casal procurou os portugueses donos da área para acertar a transferência do terreno em cartório.

"Se eu quiser ir para o interior e ter uma vida mais sossegada, já posso vender o imóvel", comemora Seu Toninho, de 53, mestre de obras que trabalhou anos como motorista particular do humorista Carlos Alberto de Nóbrega. A mulher, merendeira da rede municipal de ensino, vende bolos requisitados por abastados do Morumbi.

Dona Penha e Seu Toninho não são os únicos na segunda maior favela de São Paulo a conseguirem a posse da casa onde moraram por anos sem regularização. A propagação de ações por usucapião e as obras de urbanização em Paraisópolis fizeram com que imóveis até então sem nenhum valor jurídico, construídos em área particular, adquirissem preços de bairro. "As primeiras ações por usucapião que nós demos entrada em 1995 estão saindo agora. Mais de cem famílias conseguiram o usucapião desde 2006", afirma o advogado Gilberto Tejo de Figueiredo, que presta assistência jurídica na favela.

Além do usucapião, o governo municipal adquiriu 192 lotes que pertenciam a antigos proprietários da área invadida, o que permitiu a regularização fundiária de 2 mil imóveis, de um total de 21,2 mil. Área invadida no início dos anos 60, Paraisópolis, com 80 mil moradores e 900 mil m², tem população menor só que 37 dos 645 municípios do Estado. Quase meio século se passou e a favela começa a ganhar perfil de bairro pela primeira vez, com córregos canalizados, ruas pavimentadas, novas escolas, coleta de lixo e cobrança do IPTU.

"Por menos de R$ 150 mil eu não vendo minha casa. Ela vale hoje R$ 180 mil, meu usucapião está aqui, ó!", comemora com a documentação em mãos a dona de casa Arlete Barbosa, de 53 anos, desde os 19 em Paraisópolis. A casa onde mora tem 142 m², garagem, três quartos, piso frio e um imenso quintal onde os filhos e netos passam o dia jogando bola. O imóvel está avaliado em R$ 140 mil. "Tem um morador da Vila Sônia que já comprou dois terrenos aqui, ele quer fazer daqui uns anos aqueles prédios de três andares, com apartamentos de dois quartos", afirma o corretor Jorge dos Santos, de 41, que trabalha em Paraisópolis.

Valorização

Obras como as construções em andamento de um Centro Educacional Unificado (CEU), de uma escola técnica, de duas escolas de ensino fundamental e a recém-chegada Casas Bahia ajudam a valorizar os imóveis em Paraisópolis, onde também há choperia com som ao vivo, sala de cinema, imobiliária e lojas para o consórcio de veículos. As obras estão por toda a parte, da troca da rede de água ao alargamento e nivelamento das ruas. Restam hoje poucas vias de terra na favela. Ao todo, governos estadual, municipal e federal vão investir R$ 300 milhões até dezembro de 2009.

Quem conseguiu a posse do imóvel e quer continuar na região aproveita para fazer reformas. As casas de tijolo com até três lajes, em um processo de verticalização que teve início nos anos 80, com o adensamento populacional, começam agora a ganhar fachadas de sobrados de classe média, com pintura e acabamento em alvenaria. A cada esquina, há uma loja de material para construção.

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