A Falcon Metais, empresa que havia comprado minas de potássio da Petrobras e teve o negócio desfeito por pressão do Planalto, vai tentar reverter a decisão. Nosso objetivo é fazer exatamente o que o governo quer: produzir potássio muito rápido, pois todos têm a ganhar com isso, disse o presidente da empresa, Hélio Diniz.

"Queremos uma oportunidade para saber qual é a demanda, qual é o problema, para tentar ajudar a resolver." Conforme publicou o Estado em sua edição de quinta-feira da semana passada, a Petrobras colocou à venda os direitos de mineração de suas reservas de silvinita na Amazônia. Desse mineral é extraído o potássio, matéria-prima para a fabricação de fertilizantes, produto considerado estratégico para o governo, diante do crescimento da demanda mundial por alimentos e biocombustíveis.

O negócio teria desagradado à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e por isso a estatal cancelou a operação no último dia 15. Em nota, a Petrobras atribuiu a decisão à alta administração da empresa e alegou "razões estratégicas".

Segundo técnicos do governo, a posição da ministra Dilma Rousseff foi apoiada por outros integrantes do governo, como os ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, e de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, além do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Do ponto de vista deles, o negócio foi uma má idéia porque entregaria a empresas internacionais um insumo estratégico para o País, num momento em que o governo elegeu como prioridade o aumento da produção nacional de fertilizantes. Havia ainda o risco de a nova dona das minas não explorá-las, de modo a manter os preços em alta.

"Não temos nenhuma relação com o cartel internacional de fertilizantes", disse o presidente da Falcon. Segundo afirmou, o foco da empresa é mineração, e a idéia é produzir potássio prioritariamente para o mercado brasileiro. Eles não pretendem fabricar fertilizantes.

Diniz esclareceu ainda que a Falcon Metais é uma empresa brasileira, recentemente constituída, que tem cerca de 15 sócios estrangeiros entre canadenses, americanos e europeus. Há planos para lançar ações na Bolsa de Valores de São Paulo. Integrantes do governo, porém, referem-se a ela como uma empresa canadense. Essa referência consta da nota divulgada pela Petrobras. No Canadá, estão as maiores produtoras de potássio do mundo.

A Falcon faz parte de um grupo empresarial que já atua no Brasil. Entre seus negócios, estão uma mina de ouro em Jacobina (BA), já em operação, e uma mina de vanádio em Maracás (BA), que começará a produzir em 2009.

Decisão empresarial

Produzir potássio foi uma decisão empresarial, segundo o presidente da Falcon. "Nosso objetivo é buscar a melhor oportunidade de investimentos e o potássio é uma hot commodity."

Atualmente, a tonelada do produto está cotada na casa dos US$ 800. Há um ano, quando a Petrobras tentou vender as minas que hoje causam tanta celeuma, a tonelada estava em US$ 150. Como o valor não cobriria os custos de produção e transporte, naquela ocasião não houve interessados.

Na licitação realizada há um mês, porém, surgiram três concorrentes. A Falcon Metais saiu vencedora com uma proposta de R$ 151 milhões, 60% acima do valor mínimo fixado em edital. Desses, 10% já foram pagos à estatal. Por esse montante, a empresa arrematou a totalidade - e não 10%, como haviam informado técnicos do governo - dos direitos de mineração na região, que tem uma reserva de potássio de 1,2 bilhão de toneladas, suficiente para produzir durante 50 anos.

Para começar a exploração, a empresa precisará investir mais R$ 3 bilhões. A produção começaria em cinco a sete anos. Numa fase inicial, ela atingiria 2 milhões de toneladas por ano, o triplo da produção atual. A demanda brasileira é de 7 milhões de toneladas anuais, o que faz o País ser fortemente dependente de importações.

Diniz rebateu outra preocupação do governo: a de a Falcon não produzir potássio e ficar "sentada em cima" da mina para manipular preços. "Já investimos muito, portanto quanto mais rápido tivermos o investimento, melhor", argumentou. Ele observou que o governo pode retomar direitos de mineração de reservas que não sejam exploradas.

"A legislação é clara: não existe como manter o direito mineral sem trabalhar, a não ser que você seja a Petrobras. Quando eu digo Petrobras, eu digo empresa do governo, que o próprio governo faz vistas grossas na fiscalização." Segundo integrantes do governo, a estatal detinha os direitos da mina de silvinita há 15 anos, e nunca a explorou.

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