Animados com os preços cada vez maiores do ferro-gusa, matéria-prima para a fabricação do aço, no mercado internacional, os produtores brasileiros passaram praticamente todo o primeiro semestre investindo em aumento de produção e contratando mais empregados. Fornos que estavam há anos desativados foram religados.

Em julho, o preço da tonelada do produto atingiu o patamar recorde de US$ 830. A crise econômica global que eclodiria dois meses depois, no entanto, mudou completamente a perspectiva dessas empresas. Na semana passada, o diretor da mineradora MMX afirmou que nada menos que 103 dos 161 fornos de ferro-gusa existentes no Brasil estavam parados.

"Nos últimos 60 dias o mercado de ferro-gusa está congelado", disse. A própria MMX iria paralisar ontem a operação da sua unidade de ferro-gusa em Corumbá (MS). A maior parte da produção de gusa da empresa, que chegou a 185 mil toneladas de janeiro a setembro, é destinada ao mercado externo.

A retração no setor, provocada principalmente pela queda na demanda internacional, é sentida principalmente em Minas Gerais, Estado que concentra cerca de 70% da produção nacional de gusa. Historicamente, metade da produção mineira é exportada, principalmente para os Estados Unidos. O mercado interno não é tão grande, já que as grandes siderúrgicas brasileiras produzem seu próprio gusa. "O gusa recebe o impacto no peito", diz o presidente da Sindicato das Indústrias de Ferro de Minas Gerais (Sindifer-MG), Paulino Cícero.

Sindicatos de cidades das regiões central e centro-oeste do Estado estimam, em um cálculo considerado otimista, um corte de aproximadamente 10% no total de 20 mil empregos diretos do setor. Só em Sete Lagoas - município que concentra a maior produção de ferro-gusa da América Latina, com 22 empresas instaladas -, 2,3 mil trabalhadores foram demitidos, ou mais de 40% dos 5,5 mil empregados, diretos e indiretos, das fábricas. Outros 950 estão em férias coletivas ou em licença remunerada.

Embora acostumado às oscilações, o setor vive sua maior crise nos últimos dez anos, segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sete Lagoas, Ernane Geraldo Dias. "Eu nunca tinha visto nada igual", disse. "Desta vez, a coisa está de parar mesmo."

A fabricante Siderpa é um exemplo claro dessa situação. Em abril, a empresa religou um alto-forno que estava parado havia dois anos, contratou funcionários e aumentou sua produção em 8 mil toneladas por mês. Em outubro, teve de desligar o forno novamente. No pátio, aproximadamente 16 mil toneladas do produto estavam estocadas. Normalmente, segundo o superintendente industrial da empresa, Ricardo Guedes, o estoque atinge no máximo 8 mil toneladas.

De acordo com o proprietário da fábrica, Afonso Paulino, a Siderpa destina para o exterior 60% de sua produção, que foi reduzida de 220 mil toneladas/ano para 130 mil toneladas com o desligamento de um alto-forno. Estados Unidos, Japão e países europeus são os principais mercados da empresa, que também enfrenta concorrência de fabricantes da Ucrânia, Rússia e África do Sul.

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