Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - Maior exportador de carne bovina do mundo, o Brasil deverá ampliar as suas vendas externas em 32 por cento até 2017, para 2,9 milhões de toneladas (equivalente carcaça), estimou nesta terça-feira um estudo da AgraFNP, divisão brasileira do Agra Informa, líder em consultoria global na área de agricultura e pecuária.

Apesar de as previsões da AgraFNP não indicarem um cenário de tranquilidade para pecuaristas e frigoríficos, o Brasil deve se firmar na liderança mundial do setor em meio a dificuldades ainda maiores enfrentadas pelos seus principais concorrentes, como disponibilidade limitada para o crescimento da área para agropecuária e custos mais altos.

Austrália, Estados Unidos e Argentina --com problemas de seca, alta de custos com milho para criação intensiva e de oferta, respectivamente-- já estão próximos do limite de sua capacidade produtiva, segundo a consultoria.

'As previsões (de exportação) para o Brasil estão sujeitas a condições de mercado. O número pode ser superior se tiver problema de oferta no mercado internacional, e se o Brasil tiver acesso a novos mercados', disse o diretor técnico da AgraFNP, José Vicente Ferraz, a jornalistas.

A consultoria estima um crescimento na demanda mundial de carne de 250 mil a 300 mil toneladas por ano, por compras de países asiáticos e até pelos Estados Unidos.

Mesmo ampliando o seu rebanho, o Brasil não conseguirá absorver todo esse aumento de demanda, o que indica que os preços da arroba do boi no país devem continuar em alta, subindo cerca de 20 por cento em cinco a dez anos, em relação a patamares atuais historicamente elevados.

Uma demanda aquecida dessa ordem poderia facilitar as coisas para o Brasil, não fossem os custos mais elevados de produção e os problemas gerados pelo intenso abate de matrizes em anos recentes, que agora diminuiu a oferta de bezerros e limita o crescimento da produção de carne.

Com preços mais altos da carne por consequência, deve haver uma redução no consumo per capita no mundo, ou mesmo situações curiosas como um direcionamento de produtos antes exportados para o mercado interno brasileiro, uma vez que o real fortalecido ante o dólar se reflete muitas vezes em um mercado mais remunerador no país do que no exterior --isso é até apontado como um dos fatores que têm tirado o brilho das exportações brasileiras neste ano. [ID:nN17363820]

MENOS PASTAGENS, MAIS BOIS

Além disso, mesmo no Brasil, tradicionalmente um criador extensivo de bovinos, as áreas de pastagens devem ser reduzidas em 17 milhões de hectares até 2017, ante atuais 190 milhões de hectares, com outras atividades rurais ganhando terreno, em meio à necessidade global de se elevar a produção agrícola.

'As nossas pastagens devem encolher, mesmo com as novas áreas. E para não haver queda (na produção), vamos ter que elevar a produtividade', afirmou.

Ele explicou que o crescimento das áreas de criação no Norte e Nordeste, que deverão avançar em áreas já desmatadas, não serão suficientes para compensar a diminuição das pastagens no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, regiões cuja produção de grãos deve crescer.

'A área de expansão está sujeita a concorrência cada vez maior com outros cultivos, aí prevalece o que gera mais lucros.

Assim, a tendência é de que essas novas áreas sejam conquistadas pela agricultura', acrescentou.

Outro fator que dificulta a incorporação de novas áreas às pastagens nacionais é a pressão de ambientalistas, que tendem a limitar novos desflorestamentos.

Apesar da redução nas pastagens, o rebanho brasileiro deverá crescer de 169,7 milhões de cabeças em 2008 para 183 milhões em 2017, de acordo com informação do Anualpec 2008, um livro com dados sobre a pecuária lançado pela consultoria.

De acordo com ele, o ganho na produtividade do Brasil nos próximos dez anos se dará com melhorias na nutrição dos animais, no manejo, com um crescimento nos confinamentos --que deverão mais do que dobrar para 6 milhões de animais em 2017--, além de melhorias genéticas do rebanho.

Os frigoríficos, por outro lado, disse Ferraz, também deverão enfrentar dificuldades com o custo maior da arroba.

Muitos já trabalham com elevada capacidade ociosa e com redução em suas margens. 'Esse cenário não se reverte no curto prazo...

Até lá, as empresas vão ter que mostrar musculatura e acredito que as menores vão quebrar.'

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