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Alibaba, uma das mais desejadas para se trabalhar pelos jovens chineses, cresce com a mania do comércio online no país

A primeira sensação, ao passar pela portaria, é de estar entrando em um complexo de entretenimento. Os prédios são em forma de cubos, cobertos por estruturas de ferro brancas que imitam teias, com alguns blocos alaranjados contornando as janelas. Dentro dos sete prédios que formam o complexo, há salões de jogos, academia, supermercado, bancos, pufes e sofás espalhados em corredores e até uma cafeteria Starbucks. Mas o local é um prédio corporativo, sede de uma empresa de internet na qual a idade média dos trabalhadores é de 27 anos.

Facebook? Google? Nada disso. A empresa é a chinesa Alibaba, que vem crescendo impulsionada pela nova mania na China de fazer compras online. Líder no mercado chinês, a empresa planeja uma ofensiva para sete novos mercados, entre eles o Brasil, onde pretende ajudar vendedores a colocar seus negócios na rede. Criada por Jack Ma Yun e 17 amigos há 12 anos, quando ele tinha 35, a empresa tem mais de 410 milhões de usuários e, no ano passado, viu seu faturamento crescer 43%, para cerca de R$ 1,4 bilhão.

Em entrevista ao iG , Ma Yun, presidente da companhia que foi apelidado carinhosamente pelos chineses de E.T, “por ter uma cabeça grande e uma mente brilhante,” segundo jovens chineses, afirmou que a satisfação dos funcionários está no topo das prioridades da empresa. “Eles só perdem para os clientes na escala de importância da Alibaba”, diz.

Embora na maior parte do tempo as mesas de sinuca, ping pong e pebolim fiquem vazias – aparentemente os chineses ainda não se sentem tão à vontade como poderiam com tanta liberdade –, eles se dizem privilegiados de trabalhar na Alibaba, que tem cerca de 20 mil funcionários. “O ambiente não tem tanta pressão, acabamos fazendo muitas amizades e os prédios têm tudo o que precisamos, como academia, supermercado e estacionamento grátis. E o salário é um pouco superior à média do mercado,” afirma Lizzie Wu, que trabalha na companhia há três anos.

Inspiração americana, concentração chinesa: mesa de ping-pong fica vazia durante expediente
Olívia Alonso
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No momento, a empresa lidera o mercado online na China e é uma das companhias mais desejadas para se trabalhar entre jovens do país. Outro atrativo é que a companhia fica em Hangzhou, considerada uma das cidades mais belas da China, que tem também o metro quadrado mais caro do país . A sede fica a 20 minutos do centro, no distrito empresarial, e acomoda os funcionários da Alibaba.com, o principal negócio do grupo, que tem 57% do comércio eletrônico entre em empresas, chamado de B2B, segundo a empresa de pesquisa Analysys International.

Além desta unidade, a empresa tem outras duas mais centrais. Uma delas hospeda Taobao, subsidiária que tem 87,6% do mercado de compras online na China, segundo a consultoria chinesa iResearch. A outra é para os funcionários da Alipay, dona de 50% do segmento de pagamentos online da China.

Na cobertura do prédio da Taobao, que é bem mais antigo do que o da sede, mas também tem uma academia, é possível avistar a Alipay, que fica a cinco quadras dali. As duas unidades, apesar de menos interessantes do que a principal, têm a mesma decoração interna: a cor laranja predomina, há plantas em todas bancadas, bonecos, painéis coloridos, colantes no chão em todos os andares e gigantes sacolas xadrez no pé dos funcionários, que parecem de feira.

“É para levarem seus pertences de uma mesa para outra, quando mudam de lugar. Mas muitos acabam deixando as coisas nos sacos por meses,” diz a assessora de imprensa Nancy Zhan, orgulhosa do clima descolado.

Empresa quer crescer no Brasil

As mesas, principalmente das mulheres, são cheias de ursinhos, fotos e miniaturas de bonecos, além das garrafas de chá e umidificadores de ar. Nas cadeiras, almofadas e travesseiros coloridos são comuns. As salas de reunião levam nomes de famosos personagens de histórias em quadrinhos chinesas.Foi com este ambiente de trabalho que a Alibaba conquistou o mercado local e agora está preparando uma ofensiva fora da China. A estratégia principal da empresa inclui o Brasil, afirma Brian Wong, vice-presidente de vendas global da companhia. “Estamos focados em sete países: Brasil, Índia, Coreia, Malásia, Turquia, Vietnã e Japão”, diz.

Segundo Wong, o primeiro passo é encontrar fornecedores em diversos setores e ajudá-las a se profissionalizar para o comércio eletrônico. “Precisamos dar suporte para os fabricantes brasileiros melhorarem sua qualidade a apresentação para vender na internet,” diz. Ele compara o País à China, afirmando que o gigante asiático, apesar de também ser um emergente, é mais sofisticado no comércio online. “Mesmo as companhias chinesas pequenas são muito agressivas,” diz.

Uma das barreiras para o forte avanço no Brasil e outros países, reconhece a Alibaba, é a qualidade da internet. “Na China, o comércio eletrônico cresce rapidamente porque temos uma sofisticada infraestrutura de banda larga no país”, afirma Polo Shao, gerente geral da Alibaba.com. Além disso, a população de alguns dos países alvo da companhia ainda não tem costume de comprar pela internet e confia mais em lojas físicas.

No Brasil, a companhia tem 250 mil cadastrados, segundo Wong. Apesar de ser um universo relativamente pequeno, ele afirma que a companhia está satisfeita porque vem registrando oito mil novos usuários por mês, desde o ano passado. “Na América Latina, o país é o maior mercado e vemos um grande potencial para o negócio.” Até o momento, as empresas dos setores agrícolas,

Decoração inspirada nas empresas de tecnologia dos EUA: 12 anos de história nas paredes da sala de encontro da Taobao
Olívia Alonso
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de bebidas e minerais são as que mais utilizam as plataformas da companhia e, juntas, correspondem a 63,4% dos registros.

Na China, onde 2,1% do comércio total foi feito por meios eletrônicos segundo o dado mais recente, de 2009, a Alibaba pode ser favorecida pelos incentivos do governo chinês para o aumento do consumo doméstico . “O crescimento das compras na China favorece o país como um todo. Empresas menores querem crescer, aproveitando este bom momento do país e o canal internet para atingir mais consumidores, parceiros e fornecedores é essencial”, afirma Shao.

Vida online

Michelle Chun é uma das consumidoras que contribui para as estatísticas. “Normalmente, vou às lojas para ver as especificações dos produtos e volto para casa para comprar pela internet”, diz. “Todos meus amigos também fazem isso. Sempre fica mais barato.” Ela é uma das usuárias da Taobao, cujos principais concorrentes são a eBay China e a também chinesa 360º.

Atualmente, a iResearch estima que os negócios pela internet movimentem 4,8 trilhões de yuan (R$ 1,2 trilhão) no país. A expectativa é a de que o valor chegará a 10 trilhões de yuan até 2013 (cerca de R$ 2,5 trilhões). Apenas para comparação, no Brasil, a projeção da empresa de pesquisa de mercado e agregadora de ofertas Ebit é de que o comércio online movimentará R$ 20 bilhões este ano.

Dona do Yahoo! China, a Alibaba aposta no crescimento, mesmo com o aumento da concorrência. Ma Yun, que recebeu US$ 1 bilhão da Yahoo! por 40% da Yahoo! China, afirma que há espaço para todos crescerem nos negócios online. Em poucos anos, diz ao iG , a internet será “inseparável de todas as facetas da vida”. “Não haverá distinção entre online e offline. A internet estará em todos os lugares e será uma parte da vida de todos, assim como a água é hoje.”

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